O petróleo voltou aos três dígitos — e os mercados globais sentem o impacto. Depois de mais de três anos e meio longe desse patamar, o barril da commodity ultrapassou novamente a marca de US$ 100, impulsionado pela escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que já chega ao décimo dia.
Em determinados momentos da madrugada, as cotações chegaram a saltar mais de 25%, se aproximando de US$ 120 por barril.
A reação nos mercados financeiros foi dura. O dólar se fortaleceu, investidores buscaram proteção e os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano subiram, com a Treasury de 10 anos atingindo o nível mais alto em mais de um mês.
Ao mesmo tempo, o VIX, índice conhecido como o “termômetro do medo” de Wall Street, avançou para o maior nível desde abril de 2025.
A volta do petróleo aos três dígitos
Logo na reabertura das negociações internacionais, o mercado de petróleo reagiu com força. O barril do Brent, referência no mercado internacional, subia 11,19% por volta das 9h17, a US$ 103,06.
Já o WTI, referência nos Estados Unidos, era negociado perto de US$ 100,94, avanço de mais de 11% no mesmo horário.
O movimento prolonga uma disparada que já vinha se acumulando nos últimos dias. Na semana passada, o WTI subiu 36% e o Brent avançou 28%, em meio à deterioração do cenário geopolítico.
A última vez que o petróleo havia superado os US$ 100 foi em 2022, quando a guerra na Ucrânia provocou um choque semelhante no mercado de energia.
O que faz o petróleo subir tanto?
Por trás dessa escalada está um temor que o mercado conhece bem: um choque de oferta global de energia. No centro dessa preocupação está o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio mundial de petróleo.
Cerca de 15 milhões de barris de petróleo por dia — aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo — passam pelo estreito, segundo estimativas da consultoria Rystad Energy.
O estreito conecta produtores-chave do Golfo Pérsico — como Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos — aos mercados globais.
Porém, nos últimos dias, a ameaça de ataques com mísseis e drones iranianos praticamente paralisou o tráfego de petroleiros na região. Com a dificuldade de escoar a produção, alguns países já começaram a sentir os efeitos logísticos.
Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos reduziram a produção, à medida que os tanques de armazenamento se aproximam da capacidade máxima.
Ao mesmo tempo, o próprio conflito aumentou os riscos para a infraestrutura energética da região. Irã, Israel e Estados Unidos já atingiram instalações de petróleo e gás desde o início da guerra, ampliando os temores sobre o abastecimento global.
Além disso, no domingo (8), o Irã anunciou que Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, assumirá o posto de líder supremo após a morte do pai em um ataque ocorrido na primeira semana da guerra.
A nomeação foi interpretada como um sinal de continuidade da ala mais linha-dura do regime iraniano, o que reduz expectativas de uma desescalada rápida do conflito.
Para Felipe Sant'Anna, especialista em ações da Axia Investing, a ascensão de Mojtaba à líder supremo do Irã pode ser um "endurecimento" da linha política estabelecida por seu pai. Integrado há anos aos círculos mais conservadores do regime e com forte ligação com a Guarda Revolucionária, ele é frequentemente descrito como representante da ala mais rígida do establishment iraniano.
"Diante do atual cenário de confrontos militares envolvendo o país e da morte de seu pai em uma operação militar, a tendência pode ser de manutenção ou até intensificação dessa postura", disse Sant'Anna.
Mais cedo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a ameaçar mais retaliações se o nome escolhido não tivesse a sua aprovação prévia. "Se não tiver nossa aprovação, não vai durar muito tempo", afirmou Trump à ABC News.
Israel já afirmou que qualquer novo líder iraniano poderá se tornar alvo militar.
Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do parlamento iraniano, afirmou que os impactos da guerra sobre o setor petrolífero podem entrar em uma “espiral”, tornando cada vez mais difícil produzir e exportar petróleo.
Hoje, o Irã exporta cerca de 1,6 milhão de barris por dia, grande parte destinada à China. Caso esse fluxo seja interrompido, Pequim poderá precisar recorrer a outros fornecedores — um movimento que tende a pressionar ainda mais os preços globais.
Petróleo mais caro e o fantasma da inflação
A volta do petróleo aos três dígitos reacende um debate que parecia mais distante nos últimos meses: até que ponto a economia global consegue absorver energia mais cara.
Desde que Israel e os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã, em 1º de março, a escalada do petróleo já começou a reverberar nos preços de combustíveis.
Se o petróleo permanecer acima dos US$ 100 por barril por um período prolongado, analistas temem que os custos mais altos de energia reacendam pressões inflacionárias e reduzam o consumo.
Custos mais altos de energia tendem a pressionar cadeias produtivas, elevar o preço de combustíveis e reduzir o consumo das famílias — um cenário que dificulta o trabalho dos bancos centrais no combate à inflação.
Nos Estados Unidos, a situação já se torna delicada. A combinação de atividade mais fraca com energia mais cara pode colocar o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) em uma posição complicada, dificultando o caminho para cortes nas taxas de juros.
A próxima decisão de política monetária do banco central norte-americano está marcada para 18 de março, e os mercados já praticamente precificam a expectativa de manutenção das taxas.
Juros e inflação também entram no radar do Brasil
Os efeitos do petróleo mais caro também começam a aparecer nas expectativas para a economia brasileira.
Economistas ouvidos pelo Banco Central elevaram a projeção para a Selic em 2026, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (9). A estimativa para a taxa básica de juros passou de 12% para 12,13%.
Já as projeções para a inflação medida pelo IPCA permaneceram em 3,91% para 2026, após a divulgação de um IPCA-15 mais forte do que o esperado. Para 2027, houve leve ajuste para cima, de 3,79% para 3,80%.
No câmbio, a expectativa é de um dólar a R$ 5,41 ao fim de 2026, levemente abaixo dos R$ 5,42 projetados anteriormente. A previsão para o crescimento do PIB brasileiro permaneceu estável.
O mercado agora aguarda os dados do IPCA de fevereiro, que serão divulgados na quinta-feira (12). A expectativa é elevada após o IPCA-15 registrar alta de 0,84%, acima das estimativas do mercado.
Veja as projeções do Relatório Focus de hoje:
Inflação
- 2026: permanece em 3,91%
- 2027: de 3,79% para 3,80%
- 2028: permanece em 3,50%
- 2029: permanece em 3,50%
PIB
- 2026: permanece em 1,82%
- 2027: permanece em 1,80%
- 2028: permanece em 2%
- 2029: permanece em 2%
Selic
- 2026: de 12% para 12,13%
- 2027: permanece em 10,50%
- 2028: permanece em 10%
- 2029: permanece em 9,50%
Dólar
- 2026: de R$ 5,42 para R$ 5,41
- 2027: permanece em R$ 5,50
- 2028: permanece em R$ 5,50
- 2029: permanece R$ 5,50
Wall Street e bolsas globais sentem o choque do petróleo
A disparada do petróleo rapidamente se refletiu nos mercados financeiros. Os futuros dos índices de Wall Street recuavam mais de 1% nesta segunda-feira (9), pressionados tanto pela escalada da commodity quanto pela deterioração do cenário geopolítico.
Veja o desempenho dos índices futuros dos EUA por volta das 9h20:
- Dow Jones: -1,19%
- S&P 500: -1,06%
- Nasdaq: -1,09%
Na Europa, o movimento também foi de queda. O Euro Stoxx 50 caía 1,68% no mesmo horário, acumulando o terceiro pregão consecutivo de perdas. Em uma semana, a queda supera os 6%.
Além da geopolítica, os investidores também reagiram a dados fracos da economia alemã. A produção industrial da Alemanha caiu 0,5% em janeiro, contrariando expectativas de crescimento de 1%. Na comparação anual, a produção recuou 1,2%.
Confira a performance das principais bolsas europeias hoje:
- Londres: -1,06%
- Paris: -1,87%
- Frankfurt: -1,27%
Os mercados asiáticos também sentiram com força o impacto do petróleo mais caro, dada a dependência da região de importação da commodity.
A Bolsa de Tóquio despencou mais de 5% nesta segunda-feira, refletindo o temor de que a alta da energia pressione economias altamente dependentes da importação de combustíveis fósseis. O índice Nikkei caiu 5,2%.
Outras bolsas da região acompanharam o movimento:
- Kospi (Coreia do Sul): -5,96%
- Taiex (Taiwan): -4,43%
- Hang Seng (Hong Kong): -1,35%
*Com informações de Estadão Conteúdo e do Money Times.
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