Selic, guerra, IA: como o investidor deve escolher ações em meio à maior turbulência nos mercados

A volatilidade veio para ficar, deixando a vida do investidor mais complicada. A guerra no Oriente Médio tem afetado profundamente os mercados. Não mexe só com os preços de combustíveis, mas com outras matérias-primas e, consequentemente, com a inflação global e as escolhas sobre juros de bancos centrais.

Há ainda outras tempestades no radar do investidor: a inteligência artificial e as eleições presidenciais, que devem tomar conta da narrativa no mercado no segundo semestre. 

Cada um desses eventos mexe com as expectativas para a taxa de juros brasileira e, consequentemente, com as ações. E a perspectiva não é nada animadora: essa instabilidade não tem data para ir embora. Nesse cenário, como investir na bolsa de valores, e quais papéis devem ser os mais e os menos afetados? 

Seu Dinheiro conversou com Rodrigo Fonseca, head de equities da Galapagos Capital, João Mamede, sócio e equity portfolio manager na AZ Quest Investimentos, Rafael Ragazi, sócio e head de ações da Nord Investimentos, e o estrategista de ações da Genial, Filipe Villegas para ajudar a responder a essas questões.  

O que o investidor deve fazer 

A consequência de toda essa instabilidade para a bolsa de valores é clara: quando o cenário é incerto, muitos migram para a renda fixa, que tem um retorno comparativamente mais seguro, o que derruba o valuation das empresas. A perspectiva de uma queda menor na taxa de juros também afeta as empresas mais endividadas, que já sofrem com os custos financeiros.

Nesse cenário, o investidor fica sem saber para onde olhar. Diante disso, as gestoras têm estratégias distintas. Mas, em comum, a recomendação é: aperte os cintos, porque a volatilidade dos mercados deve continuar.

"Nossa opção é entender o que está acontecendo e investir de forma balanceada. Não estamos só nas empresas que ganham com uma guerra mais longa e nem apenas nas que se beneficiam de juros mais baixos", afirmou Fonseca, da Galápagos.  

Outro ponto em comum é a necessidade de olhar as empresas de forma mais atenta antes de investir. As recomendações mais tradicionais de investir por setores, como varejo, empresas de utilities ou bancos, caem por terra.  

Para Rafael Ragazi, sócio e head de ações da Nord Investimentos, essas grandes histórias — saída de capital dos EUA em direção a mercados emergentes, guerra e aumento do preço do petróleo, juros altos — acabam atropelando os fundamentos das companhias.  

"O mercado não está olhando o micro. Esses movimentos globais afetam todo mundo", afirma Ragazi.  Por isso, é essencial analisar as companhias atentamente para identificar as oportunidades.  

"Quando olhamos para a bolsa, vemos empresas que estão entregando resultados ótimos e estão com preços superatrativos. Mas comprar bolsa, agora, é só para quem tem um horizonte de investimento no longo prazo", declara o especialista.   

Já a dica de João Mamede, sócio e equity portfolio manager na AZ Quest Investimentos, é ter uma carteira conservadora, mas com uma "pimentinha". Em meio a ações de petróleo, construção civil e empresas já bem estabelecidas, ele recomenda ter uma alocação pequena em empresas mais sensíveis e que poderiam se valorizar com uma redução da taxa de juros.  

Saiba o seu perfil 

Antes de fazer qualquer movimentação, o investidor precisa conhecer o seu perfil. Claro, essa é uma recomendação padrão, mas os gestores recomendam que essa autoanálise seja ainda mais criteriosa. Afinal, vender ações em um momento de pânico pode ser ainda mais desastroso — e frequente — nesse momento.   

"Trump é por característica barulhento. O investidor precisa saber lidar com esse ruído. Precisa saber identificar se a alta ou queda é especulativa ou se há fundamentos", afirma o estrategista de ações da Genial, Filipe Villegas.  

Ele diz que a análise também precisa passar pelo tempo que o investidor tem disponível para se informar e tomar decisões. "Se você consegue acompanhar o mercado e tomar decisões, pode ser mais agressivo nas escolhas. O mercado muda de uma hora para outra e fazer mudanças rapidamente é essencial." 

De olho nos setores 

Esses movimentos externos afetam setores ou mesmo toda a bolsa de maneira mais generalizada – e acabam deixando boas oportunidades na mesa.  

Mesmo bancos com taxas baixas de inadimplência têm suas ações na bolsa prejudicadas, com o receio de aumento de juros e da inadimplência. A Nord tem preferência por Itaú e Inter nesse setor. 

Varejistas, que estão de fora dos grandes índices de ações, estão ainda mais expostas às incertezas da economia local. Mesmo assim, algumas empresas têm entregado bons resultados, acima do guidance, e projetam crescimento da margem — caso da Renner. 

O mesmo acontece com empresas que precisam ter dívidas maiores, já que têm investimentos mais pesados em seus negócios. Ragazi cita a Movida, que viu suas ações caírem 21% no último mês, mesmo com redução da alavancagem para o menor patamar em cinco anos. 

Já Mamede acredita que não é hora de investir em empresas menores e com pouca liquidez, além daquelas ligadas à economia doméstica ou com teses de crescimento, que ainda demorarão alguns anos para gerar retorno com fluxo de caixa. 

Outro setor mencionado pelos especialistas é a construção civil. Ainda que, normalmente, juros mais altos signifiquem menos demanda para o segmento, isso não acontece com todas da mesma forma.  

De um lado, as companhias voltadas à classe alta continuam fortes, já que uma variação leve da taxa de juros não limita tanto o poder de compra desse público. De outro, os imóveis mais populares são voltados ao programa Minha Casa Minha Vida, com juros de financiamento subsidiados pelo governo.  

Assim, as construtoras voltadas à baixa renda estão em sua melhor fase da história. "O Brasil tem um déficit habitacional quase infinito, e o setor está protegido pelos programas governamentais. Há muito espaço para o crescimento das empresas", afirma Mamede. 

Em um cenário de juros mais altos, as seguradoras também tendem a se beneficiar de juros altos. Como elas precisam manter um grande valor investido, para pagar os sinistros, os juros mais altos aumentam a rentabilidade do seu caixa, diz Villegas.   

Já no cenário eleitoral, a recomendação da Genial é ficar de fora de small caps, empresas que têm menos movimentação no mercado. Independentemente do setor da companhia, o fluxo de capital para essas ações está condicionado a uma possível queda dos juros — o que depende das políticas fiscais. 

"Não faz sentido tomar decisões querendo adivinhar o que vai acontecer nas eleições, com base em pesquisas eleitorais que mudam toda semana", afirma o especialista da Nord. 

A guerra no Oriente Médio 

A bolsa brasileira é altamente influenciada por acontecimentos externos. Se, no início do ano, a fuga do capital estrangeiro dos Estados Unidos buscou as bolsas emergentes e levou o Ibovespa a alcançar recordes, a guerra reverteu esse cenário.  

A cada novo ataque entre os Estados Unidos e Irã, ou informação sobre as negociações de paz, os ativos brasileiros sentiam o choque, ora se valorizando e ora perdendo valor.  

O impacto não se limita às petroleiras: com a alta do preço do combustível, que chegou a ultrapassar os US$ 110 por barril, todos os produtos tendem a ter um frete mais caro. Fertilizantes e até certos materiais de construção também sofrem com o conflito. 

Ainda que haja certo otimismo em relação às conversas entre o presidente Donald Trump e o aiatolá Mojtaba Khamenei, ainda há muitas incertezas no horizonte. Ainda não é possível saber quando, de fato, a guerra irá acabar, qual será o impacto duradouro no preço do petróleo e na inflação.  

Qual será o impacto nos juros 

Além dos efeitos diretos sobre os preços de ações, o conflito também move as bolsas de maneira indireta.  

Para tentar amenizar o aumento de preços, bancos centrais por todo o mundo começaram a rever suas políticas monetárias. Ou seja, alteraram seus planos de cortes de juros.  

Com isso, perdem principalmente os mercados emergentes, que até então eram destino do capital que saía dos Estados Unidos.  

De uma maneira ou de outra, todos esses fatores mexem com as expectativas para a taxa básica de juros brasileira. Se no início do ano a expectativa do mercado era que a Selic chegasse a 12,25% ao ano em dezembro, segundo o último boletim Focus a previsão é de 13,25% ao ano.  

Eleições presidenciais 

Além da tensão vinda do ambiente externo, há um fator doméstico que também começará a dominar a atenção dos investidores brasileiros: as eleições presidenciais.  

A grande discussão para o mercado é o controle de gastos do governo.  Despesas maiores que as receitas aumentam a dívida pública, afetam o risco do país e a inflação, já que a população tem uma renda maior para consumir. 

Consequentemente, as taxas de juros precisam ser mantidas por um nível mais elevado. Já um controle mais rigoroso reduz esses temores e pode indicar uma queda maior da Selic.  

O rali da inteligência artificial 

Paralelamente ao caos geopolítico, a corrida pela inteligência artificial também afeta as empresas, ora levando as gigantes a novos níveis de valor de mercado, ora derrubando as empresas de tecnologia pelos seus impactos ou necessidades de investimentos bilionários

O risco é que a IA diminua o fosso de competitividade que algumas empresas têm, com aumento da eficiência e processamento de dados.  

"Por isso, preferimos empresas 'hard asset', com ativos reais, já que empresas de software ou tecnologia podem sofrer impacto com a IA", afirma Fonseca, da Galápagos Capital. "Precisamos entender se o diferencial da empresa irá resistir à IA", afirma.  

Nessa corrida, a economia brasileira tem uma vantagem: é exportadora principalmente de commodities, que não podem ser substituídas por tecnologia, e importa serviços, que podem ter seu custo reduzido.   

The post Selic, guerra, IA: como o investidor deve escolher ações em meio à maior turbulência nos mercados appeared first on Seu Dinheiro.

Sr. Lobo

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem