De devedor a investidor: o passo a passo para reorganizar a vida financeira e começar a investir mesmo ganhando pouco 

Brasil nunca teve tanta gente endividada. Segundo a Serasa Experian, o país chegou a 82,8 milhões de inadimplentes em março. Com o orçamento pressionado por cartão de créditoempréstimos e contas básicas, milhões de brasileiros ainda enxergam investimentos como algo distante da própria realidade. 

Mas especialistas em educação financeira afirmam que o caminho entre o endividamento e os primeiros investimentos é mais possível do que parece. O processo, porém, passa menos por promessas de enriquecimento rápido e mais por organização, disciplina e mudança de hábitos financeiros. 

Para planejadores financeiros, sair do vermelho e começar a investir exige primeiro entender que educação financeira não começa nos investimentos, mas na reorganização da vida financeira básica. 

A educadora financeira e influenciadora Nathália Rodrigues, conhecida como Nath Finanças, começou a produzir conteúdo justamente para falar sobre este tema. 

Segundo ela, o mercado financeiro historicamente conversou mais com quem já tinha patrimônio acumulado, deixando de lado a realidade de pessoas que convivem com cheque especial, cartão de crédito rotativo e renda insuficiente. 

“Era sempre sobre investir, fazer o primeiro milhão ou multiplicar patrimônio. Mas muita gente ainda está tentando fazer o salário durar até o fim do mês”, afirmou a influenciadora, em entrevista ao Seu Dinheiro

O retrato do endividamento no Brasil 

Os números ajudam a explicar por que o discurso de Nath Finanças ganhou força nos últimos anos — e por que educação financeira deixou de ser apenas um tema de investimentos para se tornar uma questão de sobrevivência para milhões de brasileiros. 

Segundo o mais recente levantamento do Mapa da Inadimplência do Serasa, o país acumula 338,2 milhões de dívidas ativas. A dívida média já ultrapassa R$ 6,7 mil por consumidor, enquanto cada inadimplente possui, em média, mais de três débitos em aberto. 

cartão de crédito segue como o principal motor desse endividamento. Cerca de 73% das dívidas estão ligadas à modalidade, marcada por juros elevados e pelo uso frequente como complemento de renda no fim do mês. 

Os dados também mostram que a inadimplência está diretamente relacionada à perda de renda da população. Segundo o levantamento, 38% dos brasileiros afirmam que ficaram endividados após enfrentar desemprego ou redução nos ganhos mensais. 

Ao analisar a origem das dívidas bancárias, a pesquisa aponta que boa parte dos consumidores recorre ao crédito para cobrir despesas essenciais, como contas básicas da casa, alimentação e até o pagamento de outras dívidas. 

Para Nathália Rodrigues, esse cenário desmonta a ideia de que inadimplência está ligada apenas à falta de controle financeiro. 

“O endividamento não acontece só porque a pessoa não sabe cuidar do dinheiro. Muitas vezes, ela perdeu renda, ficou desempregada ou entrou num juro que virou uma bola de neve”, afirmou. 

Bruno Nahon, planejador financeiro CFP pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), explica que uma dívida é administrável quando cabe no orçamento sem atrapalhar contas básicas e sem obrigar a pessoa a contratar novas dívidas para pagar as antigas.  

“A pessoa saiu do controle quando o cartão, cheque especial ou empréstimos começam a virar complemento de renda”, acrescenta. 

Economia no azul, brasileiro no vermelho: por que os dados não batem com a realidade?

A autoanálise começa antes da planilha 

Ao contrário das fórmulas tradicionais de educação financeira, Nathália defende que o primeiro passo para reorganizar a vida financeira não começa na planilha de gastos, mas na compreensão da própria relação emocional com o dinheiro. 

Segundo ela, períodos de privação criaram uma relação emocional com consumo, algo comum entre famílias de baixa renda que passaram anos convivendo com insegurança financeira. 

Na mesma linha, a CEO da Predisser Educação Empresarial, Simone Santolin, pontua que a relação emocional com o dinheiro impacta diretamente as decisões do indivíduo. “Medo, ansiedade e insegurança podem gerar escolhas impulsivas ou até paralisar o crescimento”, afirma. 

Por isso, antes de cortar gastos ou montar metas de investimento, a recomendação é que as pessoas entendam quais traumas moldaram sua relação com consumo, escassez e dinheiro. 

Como começar a sair do vermelho 

O primeiro passo para reorganizar as finanças é definir prioridades. Moradia, alimentação, saúde e educação devem vir antes de qualquer renegociação financeira. 

Depois disso, especialistas recomendam mapear todas as dívidas, identificando valor total, juros cobrados, prazo, parcelas e credores. Com essas informações, fica mais fácil identificar quais débitos são mais perigosos para o orçamento. 

“Quando possível, vale tentar negociar primeiro as dívidas mais caras, como cheque especial e rotativo do cartão”, afirma Bruno Nahon. 

Caso esteja devendo contas de serviços básicos, como luz, água e gás, é importante priorizá-las, pois estes serviços podem ser cortados por falta de pagamento. 

Clay Gonçalves, planejadora financeira CFP pela Planejar, explica que o processo também passa por avaliar o custo efetivo total das dívidas e até considerar a substituição de empréstimos caros por linhas mais baratas. 

“Com os dados organizados, é possível entender qual dívida compromete mais a renda, qual possui maior risco e quais estratégias fazem sentido para renegociação”, diz. 

Especialistas também alertam para um erro comum entre pessoas que tentam sair rapidamente do endividamento: aceitar renegociações que reduzem a parcela mensal, mas tornam a dívida ainda mais cara no longo prazo. 

“O maior erro é fazer um acordo que parece resolver o problema, mas cria uma parcela impossível de sustentar”, pontua Bruno Nahon. 

Adeus ao nome sujo 

Outro ponto importante é tentar renegociar as dívidas que você não esteja conseguindo pagar, principalmente se estiver com o nome sujo, isto é, com seu CPF inscrito em um cadastro de inadimplentes, como Serasa, SPC ou SCPC

Você pode tentar entrar em contato com o credor para obter juros menores, descontos no valor da dívida (principalmente se conseguir juntar uma boa quantia para oferecer um pagamento à vista de parte do débito) ou então um alongamento de prazo, com mais parcelas que caibam no seu bolso. 

Caso você esteja negativado, seu CPF precisa ser retirado dos cadastros de inadimplentes após a renegociação, limpando seu nome mesmo antes de você ter quitado a dívida. 

Nesta matéria, falamos mais sobre o passo a passo para limpar o nome. 

A importância da reserva financeira 

Mesmo durante a reorganização das contas, educadores financeiros defendem a criação gradual de uma reserva de emergência. 

Isso porque qualquer imprevisto — desemprego, problema de saúde ou gasto inesperado — pode fazer o consumidor voltar ao ciclo de dívidas. 

“Quitar dívidas caras deve vir antes dos investimentos. Não faz sentido investir enquanto se paga juros altos. Mas uma pequena reserva de segurança também é importante”, afirma Nahon. 

Nesse processo, muitos especialistas defendem a estratégia de “pagar-se primeiro”: transformar o dinheiro guardado em uma conta fixa do mês, assim como o aluguel ou a internet. 

A estratégia, segundo Nathália Rodrigues, também ajuda a criar disciplina financeira e reduzir a sensação de que investir é algo distante da realidade de quem ganha pouco. 

Investir não começa com muito dinheiro 

Embora a ideia de que investir exige alta renda ainda afaste muitos brasileiros do mercado financeiro, especialistas reforçam que o hábito costuma ser mais importante do que o valor inicial aplicado. 

“É possível começar com valores pequenos, porque o mais importante no início não é o montante, mas a disciplina de juntar”, diz Bruno Nahon. 

Para quem está começando depois de sair das dívidas, os investimentos mais indicados costumam ser os mais simples e conservadores.  

Entre as aplicações mais acessíveis nesse cenário estão o Tesouro Selic e os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que pagam um percentual do CDI, taxa que acompanha de perto a Selic. 

O Tesouro Selic, título público negociado no Tesouro Direto, costuma ser indicado para a formação da reserva de emergência por ter liquidez diária — ou seja, o dinheiro pode ser resgatado rapidamente — além de baixo risco por ser um título público emitido pelo governo federal. 

Recentemente, o Tesouro Direto lançou um novo tipo de título público ainda mais adequado para a reserva de emergência, o Tesouro Reserva. Porém, por enquanto, ele só está disponível para os correntistas do Banco do Brasil. 

Já os CDBs, emitidos por bancos, podem oferecer retornos superiores, principalmente em instituições menores. 

Porém, mesmo bancos grandes hoje em dia oferecem CDBs acessíveis, com liquidez diária e remuneração de 100% do CDI, considerado o mínimo para o produto ser atrativo atualmente. 

Caso você opte pelo CDB de uma instituição financeira de menor porte, porém, é importante respeitar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege aplicações de até R$ 250 mil por CPF, por instituição financeira. 

Vale frisar que os CDBs e títulos Tesouro Selic geralmente são os ativos nos quais o dinheiro é investido quando aplicamos nas “caixinhas” e “cofrinhos” dos bancos digitais. 

A caderneta de poupança, por sua vez, também pode ser uma alternativa para as primeiras reservas, mas sua remuneração, apesar de isenta de imposto de renda, tende a ser mais baixa que a do Tesouro Selic e dos CDBs.

The post De devedor a investidor: o passo a passo para reorganizar a vida financeira e começar a investir mesmo ganhando pouco  appeared first on Seu Dinheiro.

Sr. Lobo

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem