Em Ecos do Antropoceno (Casa Matinas, R$ 64,90), Luiz Villares parte de uma pergunta fundamental do nosso tempo: que tipo de relação a humanidade construiu com o planeta? E como sua ação passou a transformar profundamente todos os sistemas da Terra? O livro propõe uma reflexão ampla que conecta ecologia, mudanças climáticas, justiça social e economia. Com isso, busca mostrar como essas dimensões se relacionam num mundo marcado por decisões de curto prazo e da financeirização da economia.
Diretor financeiro da Fundação Amazônia Sustentável por 16 anos e membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, Luiz Villares convida o leitor a compreender o Antropoceno não apenas como um conceito científico. Em vez disso, o faz como um alerta sobre os limites da forma como organizamos nossas sociedades e economias. Atualmente, o conceito coloca o ser humano no centro de tudo e trata a natureza como recurso a ser explorado. Uma lógica de desenvolvimento dominante, que nos afasta da conexão com os sistemas naturais e contribui para a intensificação das crises climáticas e ecológicas.
Para Luiz Villares, a ecologia deve deixar de ser vista como um campo restrito da ciência. Em vez disso, deve tornar-se a lente para compreender os desafios do planeta e as interdependências entre sociedade, economia e meio ambiente.
Contrato natural
Daqui nasce uma das ideias centrais do livro: a proposta de um novo “contrato natural”. Luiz Villares propõe uma redefinição da nossa relação com a Terra. O faz abandonando a lógica de domínio e adotando uma perspectiva de cooperação e coevolução com a natureza. No centro do contrato estão os limites ecológicos do planeta.
Mais do que uma proposta fechada, o contrato natural aparece no livro como um convite ao diálogo e à transformação cultural. Villares aponta caminhos que passam pela valorização do capital social, pela cooperação entre ciência, governos, empresas e sociedade e pela aprendizagem. A isso, une saberes tradicionais que historicamente viveram em maior harmonia com a natureza.
A mensagem final é clara: diante das pressões climáticas e ecológicas do Antropoceno, a humanidade precisa reconstruir sua relação com o planeta. E entender-se, finalmente, como parte de uma rede de vida da qual depende para sobreviver e prosperar, não dominar.
Confira a entrevista com Luiz Villares, autor de Ecos do Antropoceno
Seu Dinheiro: Você vem de uma família industrial e abre o livro falando dessa formação. Nos anos 1970 havia um orgulho do crescimento das indústrias no Brasil, convivendo com a percepção de um país profundamente desigual. Mas quase não se falava de meio ambiente além da poluição visível nas cidades. Como esse contexto moldou a sua visão inicial de desenvolvimento e progresso?
Luiz Villares: Inicialmente, entendi o valor fundamental da indústria para um país buscar sua ascensão a um nível, na época, chamado de primeiro mundo. Tenho um enorme orgulho do passado industrial da minha família. O Brasil precisava ter continuado a fortalecer sua força industrial, ora secundária no chamado PIB nacional. Mas, falando do meio ambiente, meus primeiros incômodos foram com a poluição em São Paulo e em Cubatão. Ali, tínhamos um exemplo claro de uma resolução urgente e necessária.
Então, foi muito pelo comando e controle da poluição das indústrias que a noção da importância do meio ambiente ganhou espaço em minha vida. Um pouco mais tarde, com os números explosivos do desmatamento na Amazônia (pois a Mata Atlântica já estava, em sua maior parte, desmatada), comecei a ter maior preocupação com a preservação da natureza. Entendi ainda cedo a relação e complementariedade entre a poluição e a degradação dos recursos naturais. Desde criança, portanto, tinha uma percepção dos impactos da poluição nos recursos naturais, inicialmente, conforme relato, na experiência de ver a perda de vida aquática no mar e, depois, na própria poluição por plásticos.
Percebi, enfim, que o primeiro impacto do ser humano sobre o meio ambiente decorreu do risco de poluição descontrolada. Assim, associei a poluição à degradação e à perda de recursos naturais.
Seu Dinheiro: Em determinado momento, você descreve um “estalo” observando mudanças no ambiente de Ilhabela, onde veleja desde jovem. Na época, a ecologia ainda era vista como algo marginal — quase restrito à contracultura. Tom Jobim era um dos poucos que falavam do tema. O que exatamente aconteceu ali para transformar a sua percepção sobre a relação entre a sociedade e a natureza?
Luiz Villares: Eu sempre gostei de geografia, do uso e da ocupação do espaço. Desde jovem, me incomodava ver os peixinhos e os crustáceos desaparecerem das praias. Depois, passei a notar a construção e ocupação desenfreadas dos espaços, na cidade grande e no litoral.
Em minha adolescência, quando comecei a velejar, já não mergulhava mais no mar repleto de vida marinha. Mais tarde, jovem adulto, ao pegar o gosto pela vela, inclusive em mar aberto, comecei a ver cada vez mais plástico boiando. Foi um incômodo definitivo. Eu passei a me interessar em fazer algo. Esse descontamento com o meio ambiente entrou em minha vida e nunca mais saiu de mim. A evolução desse pensamento teve a ver com as questões da Rio 92, onde se iniciou a agenda global do combate às mudanças climáticas, à perda de biodiversidade e à Agenda 21.
As percepções de nossa superutilização do meio ambiente se combinaram com as questões de consumo de bens naturais, e logo passei a fazer minhas primeiras incursões na sustentabilidade, muito antes de sua adoção no mainstream econômico produtivo. Cheguei a participar de um grupo de estudo sobre consumo sustentável, enquanto continuava a me aprofundar nos principais impactos da poluição.
Seu Dinheiro: De lá para cá, o debate ambiental ganhou enorme visibilidade, inclusive no mundo corporativo. Ao mesmo tempo, surgiram críticas ao chamado greenwashing, quando a sustentabilidade se torna mais um rótulo de marketing do que uma mudança real. Como você vê essa apropriação do discurso ecológico nas últimas décadas?
Luiz Villares: Eu vejo uma apropriação, inicialmente fundamental, mas agora, excessiva, das questões da sustentabilidade. Desde a ISO 14001, passando pelo GRI e, atualmente, pelo ESG, é notável ver a agenda ambiental no centro da gestão das empresas. Também acho admiráveis as organizações empresariais e institucionais em torno dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, tais como o CBEDS e o Pacto Global da ONU, entre outras. Entendo que as empresas estão fazendo a sua parte no contexto da gestão ambiental. Acho, entretanto, que há um investimento excessivo em comunicação sobre a sustentabilidade, dando espaço a um uso da sustentabilidade voltada ao “meu ambiente”, acima do meio ambiente comum a todos.
Uma questão mais importante para os negócios e os consumidores, a meu ver, está no consumo responsável. Acho muito complexo ter um modelo empresarial orientado à maximização constante do lucro, com alta obsolescência de produtos, em um contexto de consumo crescente de matérias-primas e bens naturais, sob forte desigualdade no mundo. Esse modelo precisa ser compreendido estrategicamente pelos Estados e pelos governos. O mundo está muito distante de uma sustentabilidade plena, no sentido clássico de sua definição: do uso, do consumo e da preservação dos bens naturais no presente, em níveis adequados para que estejam plenamente disponíveis para as próximas gerações. Não há dúvida de que os progressos tecnológicos são muito relevantes. Por exemplo, o preço e a qualidade atuais dos painéis solares, e a maior durabilidade das baterias, são muito impressionantes.
Mas as questões climáticas saíram do controle, e o mundo segue com muitas centenas de milhões de pessoas em situação de pobreza, o que é o primeiro objetivo do desenvolvimento sustentável. São questões que vão muito além da vida das empresas. Enfim, a sustentabilidade precisa passar por um melhor entendimento da sociedade, sob os governos nacionais e subnacionais, nem sempre amigáveis ao meio ambiente.
Seu Dinheiro: No livro você trabalha bastante com o conceito de Antropoceno, que define o período em que a ação humana passa a alterar profundamente os sistemas da Terra. Você acha que a popularização desse conceito representa uma tentativa de recuperar o debate ecológico, agora com uma compreensão mais ampla do impacto humano?
Luiz Villares: Sim, a ideia de trabalhar o conceito do Antropoceno é nos orientar a pensar que nós, seres humanos, somos os únicos responsáveis pelo aquecimento global atual, pela perda de espécies e pela degradação de ecossistemas em estados próximos à irreversibilidade. É também uma forma de explicar a subida exponencial de várias questões ambientais e econômicas, levando-nos a pensar que tudo está relacionado. É também enxergar as questões de sustentabilidade muito além da sua vida e/ou do seu negócio.
Pensar no Antropoceno nos propõe a compreender que estamos criando um novo período geológico na Terra, que, se não for aceito cientificamente, de fato se apresenta como tal. Sendo assim, o planeta começa a dar o seu recado à humanidade sobre a condição fragilizada de residência e prosperidade em um mundo altamente impactado por nós.
Seu Dinheiro: Em determinado momento você argumenta que a financeirização da economia não é a solução para a crise ambiental e que a busca por retornos rápidos muitas vezes entra em conflito com soluções ambientais de longo prazo. Por que, na sua visão, o atual modelo financeiro não oferece respostas adequadas para a crise ecológica?
Luiz Villares: O modelo financeiro prevalente no mundo é o da rentabilidade imediata. As empresas precisam apresentar resultados positivos trimestrais. Sem dúvida, temos estratégias e modelos de gestão muito sofisticados no século 21, resultantes da nossa alta competência em criar novas tecnologias para melhorar a nossa vida.
Não há como imaginar que o mundo estivesse com o desenvolvimento tecnológico atual sob governos passados, fechados em sistemas ditatoriais, sem competição entre as empresas. Mas o oposto, ou seja, um ultraliberalismo baseado em mercados livres e estados menores, também não gera um resultado sustentável para o mundo. Haja vista as dívidas de todos os países do mundo, ao mesmo tempo em que persistem a pobreza e a baixa condição de vida de uma parte relevante da população.
Temos, então, um cenário de governos sem recursos para bancar uma jornada de atenção social, diante de uma subida exponencial dos capitais, do aquecimento global e de perdas ecológicas significativas. Ao final, o crescimento exuberante dos capitais paga menos pelo desenvolvimento dos países, do que pelo desenvolvimento de investimentos cada vez mais sofisticados, orientados a resultados, em sua maioria, de curto prazo.
Seu Dinheiro: No fim do livro você propõe a ideia de um “contrato natural”, uma redefinição da relação entre humanidade e planeta. Se tivermos que olhar algumas décadas à frente, qual é o futuro possível que você enxerga — e o que precisaria mudar para que ele se concretize?
Luiz Villares: A ideia do Contrato Natural relaciona-se a uma visão de vivermos sob um acordo com o planeta, tal qual um contrato de locação com usos e responsabilidades. Quem introduziu esse conceito ao mundo foi o filósofo francês Michel Serres. Pensar em um contrato natural nos leva a perceber e refletir sobre um mundo de maior harmonia entre as ambições humanas e as limitações de suporte natural do planeta. Trata-se de enxergar as formas de existência dos povos indígenas como verdadeiramente sustentáveis.
Trata-se de aprender a perceber o valor da ecologia em nossas vidas, pensar que a sustentabilidade não é um setor da economia. É o chão de tudo. O ar que você respira, o solo, a água, não são commodities — são serviços gratuitos da natureza. Portanto, a evolução do Contrato Natural nas próximas décadas será pelo refinamento e valorização do nosso olhar para o capital natural.
Um futuro possível será uma atitude de valor inegociável da ecologia em nossa vida. Ou seja, assim como é inquestionável o nosso direito a um lar, proteção ou segurança, será imperativo manter e fomentar a ecologia. Ela é um suporte incondicional à nossa vida. A modernidade nos ensinou a separar a humanidade da natureza, como se fossem universos distintos. Isso criou enormes riscos a uma vida plena no mundo.
Pensar em um contrato natural é entender, cada vez mais nos próximos anos, que não estamos separados da natureza. Nunca estivemos. Temos que desconstruir uma ficção de separação da natureza. Dinheiro, poder, desejos, tudo estará abaixo de uma segurança ecológica no mundo, inegociável como condição de vida.
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