Antes mesmo de estrear como romancista, o escritor Kamel Daoud já era conhecido como um jornalista polêmico por suas colunas no Quotidien d’Oran, jornal argelino em língua francesa.
Colocando-se sempre como provocador, logo após os atentados terroristas de 11 de setembro Daoud chegou a argumentar que os árabes vinham se destruindo há séculos e continuariam a se autodestruir enquanto continuassem a agir como sequestradores de aviões em vez de fabricantes de aviões.
A polêmica mais preocupante, no entanto, ocorreu em 2014, quando foi alvo de uma “fatwa” virtual depois de afirmar ao canal France 2 que o mundo árabe só poderá avançar e “reabilitar o homem” depois de enfrentar decisivamente a questão de Deus e repensar criticamente a relação com a religião, considerada por ele um ponto vital para o futuro da região.
O primeiro romance
A ameaça de morte em seu país de origem não conteve Daoud, que estreou na ficção com grande estilo com o romance O caso Meursault (Biblioteca Azul, R$ 49,90). Em 2014 o livro ficou entre os finalistas de melhor romance do Prêmio Goncourt – o prêmio literário mais prestigioso do mundo francófono. Em 2015, levaria o prêmio na categoria Romance de Estreia.
O livro é uma resposta a O estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus. Meursault, o protagonista do livro de Camus, assassina um árabe anônimo sem razão alguma, a não ser o calor insuportável; O caso Meursault toma esse incidente como ponto de partida. Daoud conta a história da perspectiva de Harun, irmão de Musa, o árabe sem nome assassinado pelo protagonista de Camus.
O narrador de Daoud consegue infundir em sua linguagem toda a discussão sobre o legado colonial francês na Argélia depois da independência. Em suas palavras: “pego as pedras das casas que os colonos deixaram e faço minha própria casa, minha própria língua”.
O caso Meursault oferece um contraponto a O estrangeiro e reclama a identidade local, colocando tanto a obra quanto a figura de Camus em xeque. Isso porque o autor, apesar de ter nascido na Argélia, era contra a independência do país. Esse é o fato pelo qual muitos autores argelinos se ressentem de Camus.
Língua Interior e o segundo Goncourt
Com Língua interior (DBA, R$ 114,90), Kamel Daoud ganha o seu segundo Goncourt. Agora, porém, na categoria principal, concedido “à obra de prosa mais imaginativa do ano”.
Com o segundo prêmio, Daoud se consolida como uma voz importante e silencia críticos como Daho Djerbal. O historiador afirmou a Adam Shatz da London Review of Books que Daoud não era “bom o bastante para o Goncourt” e que “a França jamais dará o prêmio a um argelino”.
O romance é narrado por Aube, sobrevivente de um massacre na guerra civil argelina, que teve a garganta cortada por um grupo de extremistas. Aube, então, conta sua história à filha que carrega no ventre, apesar do silêncio imposto pela violência. Vemos nessa voz interior toda a dimensão da angústia dos sobreviventes. Além disso, está presente a indecisão de Aube em manter a gravidez e perpetuar o ciclo do trauma.
Evidentemente, a história de Aube também diz muito sobre a memória coletiva de um país depois de uma “década negra” e a impossibilidade de dar voz às vítimas. A conversa da protagonista com a filha por nascer faz refletir sobre a possibilidade de superar o trauma coletivo. E também de permitir que um novo país nasça dos escombros.
O Goncourt hoje
Considerando apenas os últimos cinco anos, o Goncourt foi concedido a dois autores originários de antigas colônias e possessões francesas. Houve Kamel Daoud, em 2024, com Língua interior, mas também Mohamed Mbougar Sarr, em 2021, com A mais recôndita memória dos homens (Fósforo, R$ 114,90).
Os dois autores são mestres de seu ofício. E é preciso destacar, aliás, a maestria com que Mbougar Sarr constrói seu romance. Há ali o domínio da tradição literária francesa e as narrativas tradicionais senegalesas. Porém a premiação também sinaliza uma reconfiguração do cânone literário francês.
Se há pouco mais de uma década era difícil imaginar um autor argelino ganhando o prêmio, nos últimos anos vozes do norte da África e da África subsaariana, antes marginalizadas, passam a ocupar espaços centrais. Consigo trazem perspectivas pós-coloniais sobre o trauma, as identidades híbridas e uma prosa de contestação no mais alto nível, mostrando que para ganhar o Goncourt é preciso dominar a linguagem dos dominadores.
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