Duas semanas atrás eu disse aqui no Sextou que Desktop (DESK3) ainda tinha muito potencial de valorização.
Mesmo depois de uma alta de 50%, as ações pareciam relativamente baratas perto do que eu entendia que a Claro estaria disposta a pagar por elas.
Naquela altura os papéis negociavam por R$ 13, e de fato continuaram subindo até bater R$ 16 há poucos dias, uma alta de +25%.
Mas nesta semana os acionistas tomaram um baita susto: as ações desabaram 26%(!) na última terça-feira. O motivo foi a divulgação de um estudo da Anatel, sugerindo que a compra da Desktop pela Claro levaria a concentração de mercado para níveis “moderadamente elevados”, o que para muita gente foi um sinal de que o regulador não vai aceitar essa negociação.
Eu discordo dessa interpretação, e vou mostrar o motivo.
Um modelo simples demais
Antes de continuar, vale a pena falar um pouco do índice Herfindahl–Hirschman, ou IHH — um dos indicadores mais utilizados para a definição de concentração de um determinado mercado.
Sua fórmula é extremamente simples (talvez simples até demais) e considera apenas o market share das empresas do setor:
IHH = (mkt. share A)2 + (mkt. share B)2 + (mkt. share C)2 + (mkt. share D)2...
De maneira geral:
- Se o IHH ficar abaixo de 1.500, diz-se que o mercado está pouco concentrado;
- Entre 1.500 e 2.500, o mercado é moderadamente concentrado;
- Acima de 2.500 seria um mercado com elevada concentração.
No Estado de São Paulo, onde reside a grande preocupação da Anatel, a Vivo (VIVT3) tem 30% de market share, a Claro tem 28% e a Desktop tem 7,5% (as outras empresas são tão pequenas que podemos desconsiderá-las nas contas, pois faz pouca diferença). Neste caso, o resultado seria o seguinte:
IHH = 302 + 282 + 7,52 = 1.740.
Se a Claro comprar a Desktop e abocanhar seus 7,5% de participação, o IHH subiria para 2.160, e aqui temos a primeira observação importante: nos parâmetros indicados pelo índice Herfindahl–Hirschman, o mercado de São Paulo já é “moderadamente concentrado”, sem alterações drásticas em uma eventual aquisição da Desktop.
O segundo ponto, e talvez mais importante, é que essa foi apenas uma observação superficial do regulador sobre uma possível transação que ainda nem aconteceu, e baseada em um indicador que, além de simplista, carrega uma penca de críticas negativas na academia quando utilizado como modelo preditivo de concorrência para fusões e aquisições no segmento de telecom, por não considerar possíveis efeitos de ganhos de escala e qualidade dos serviços.
Aliás, é importante lembrar que a compra dos ativos móveis da Oi por Claro, Vivo e Tim resultou em um IHH “altamente concentrado”, e nem por isso foi barrada pelo Cade.
- Leia também: Venda da Eletronuclear é motivo de alegria — e mais dividendos — para os acionistas da Eletrobras (ELET6)
Susto passageiro
A verdade é que, depois do pequeno susto, as ações já voltaram a subir, e ontem (23) mesmo surgiram notícias de que a Claro pode estar disposta a pagar R$ 21 por cada DESK3, até um pouco acima do que eu tinha previsto duas semanas atrás:
“Alguma experiência de mercado e observação de deals recentes (como o da Brasil Tecpar, em janeiro) me dizem que um valuation de 6x Ebitda, em torno de R$ 20/ação, poderia incitar maior convergência entre as duas partes.”
Resumindo, não vejo a tal observação da Anatel como impeditivo para as negociações, e o fato de DESK3 ainda estar relativamente longe dos R$ 20 indica que há espaço para ganhos caso a transação avance.
Com uma bela ajuda da Desktop, a carteira da série Microcap Alert já sobe cerca de +40% em 2025. Mas o portfólio também conta com outras empresas pequenas com enorme potencial, que você pode conferir aqui.
Um abraço e até a próxima semana!
Ruy
The post Por que o tombo de Desktop (DESK3) foi exagerado — e ainda vejo boas chances de o negócio com a Claro sair do papel appeared first on Seu Dinheiro.
