Ambipar (AMBP3) finalmente pede recuperação judicial. Entenda a história do colapso da empresa

O inevitável aconteceu: a Ambipar (AMBP3) entrou com um pedido de recuperação judicial na madrugada de segunda-feira (20), às vésperas do fim do prazo de ‘imunidade’ que a empresa havia obtido na justiça contra credores, que acabaria na próxima segunda-feira (27).

Segundo documento divulgado pela companhia, o pedido foi protocolado na 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro e busca "garantir a preservação das atividades empresariais do Grupo Ambipar, permitindo a continuidade de suas operações e a manutenção dos empregos, contratos e serviços prestados”. A companhia não divulgou o valor da sua dívida.

O pedido de recuperação judicial já era esperado pelo mercado. Em setembro, a Ambipar viu as ações entrarem em queda livre na bolsa brasileira em meio a uma crise de confiança após descobertas de indícios de irregularidades em operações financeiras.

“O Pedido de Recuperação Judicial foi ajuizado em razão da sequência de eventos deflagrada após a descoberta de indícios de irregularidades na contratação de operações de swap pela Diretoria Financeira e a renúncia abrupta do antigo Diretor Financeiro, que resultou em forte abalo na confiança do mercado em relação ao Grupo Ambipar e culminou em pedidos de antecipação de vencimento de dívidas por parte de alguns credores, criando risco concreto de vencimento cruzado de outras obrigações do Grupo”, afirmou a empresa em comunicado ao mercado.

A companhia afirma que suas operações seguem normalmente.

Além disso, o grupo afirma que empresa a Ambipar Emergency Response, que tem sede nas Ilhas Cayman e atua em crises ambientais, também entrou com pedido de Chapter 11, que equivale à recuperação judicial na justiça dos Estados Unidos.

Caso o pedido seja aceito nos tribunais brasileiros, a companhia consegue evitar a cobrança de dívidas e ganha tempo para organizar um plano de pagamento.

O impasse com os credores que levou à recuperação judicial

A companhia de gestão ambiental até tentou evitar que o processo avançasse e chegou a conquistar o apoio de parte dos credores — entre eles, debenturistas brasileiros e detentores de bonds (títulos da dívida) no exterior. 

No entanto, o impasse com alguns bancos locais, especialmente o Itaú (ITUB4), acabou travando as negociações e inviabilizando um acordo mais amplo. Para uma recuperação extrajudicial, seria necessário o apoio de, no mínimo, um terço dos credores. 

As negociações acabaram emperrando diante de divergências sobre qual seria o foro competente para conduzir o caso.

Os maiores bancos credores defendiam que o processo fosse conduzido em São Paulo, enquanto a companhia insistia em mantê-lo no Rio de Janeiro. 

Além disso, a dispersão da dívida entre diversos investidores estrangeiros tornou ainda mais difícil reunir o quórum exigido para viabilizar um acordo fora da Justiça.

Segundo apuração do Broadcast, Bradesco, Itaú e Santander estão expostos à dívida da Ambipar em linhas de capital de giro que somavam R$ 1,68 bilhão em junho. 

Banco do Brasil e Itaú também carregam debêntures da companhia, por meio das suas gestoras,segundo informações do Broadcast. Em seu último balanço, a empresa informou ter R$ 2,8 bilhões em debêntures emitidas, remuneradas a CDI + 2,75% a 3,5%.

Na última sexta-feira (17), as ações da Ambipar despencaram mais 17% e atingiram seu menor patamar histórico, a R$ 0,37, depois que a companhia informou ter contratado a consultoria FTI Consulting para realizar uma auditoria independente do seu caixa. O objetivo é analisar se os registros contábeis têm erros ou se estão corretos.

Como a Ambipar chegou até aqui? 

Com atuação no gerenciamento de resíduos perigosos e foco em sustentabilidade, a empresa estreou na B3 em julho de 2020, surfando a onda ESG e prometendo crescimento acelerado por meio de aquisições no Brasil e no exterior. 

Para tal, a Ambipar precisou se endividar, o que não caiu nada bem quando a taxa de juros no Brasil começou sua escalada logo no fim da pandemia de covid-19.

Esse contexto arrastou o valor das ações — que chegaram na bolsa valendo cerca de R$ 24 — aos R$ 8. Foi quando a virada começou.

Os papéis saltaram de R$ 8 para R$ 268… sem que o mercado pudesse enxergar o racional por trás disso, em uma disparada que um gestor classificou como “a mais estranha nos últimos 20 anos”. Até porque o mar não estava para peixe para a companhia.

Na verdade, o que estava acontecendo é que o controlador da companhia, Tércio Borlenghi Junior, estava comprando muitas ações da empresa.

Além disso, a própria Ambipar foi a mercado com um programa de recompra de ações. Teve também a entrada dos fundos da Trustee, que têm Nelson Tanure como cotista, e impulsionou ainda mais os papéis.

Esses movimentos levaram a um short squeeze das ações da Ambipar. Ou seja, os investidores que apostavam na queda dos papéis foram forçados a cobrir suas posições. Esse movimento amplificou ainda mais a valorização na bolsa.

Em outras palavras, tinha muita gente apostando na queda das ações. Mas quando os players começaram a comprar os papéis, esse cenário esperado não se concretizou — não graças ao desempenho da empresa e sim em razão do movimento especulativo.

Quando a casa começou a cair…

O castelo começou a ruir em setembro deste ano, quando a Ambipar pediu proteção judicial contra credores. O gatilho foi a má performance dos green bonds — títulos sustentáveis emitidos em dólar para financiar projetos ambientais.

A Ambipar havia emitido esses títulos de dívida pelo Deutsche Bank em dólar.

Para se proteger da volatilidade do câmbio, já que suas receitas são em reais, a empresa contratou um contrato de swap com o banco, transformando, na prática, sua dívida em dólar em uma obrigação em real.

O problema veio com um aditivo contratual que vinculava o derivativo à performance dos próprios títulos.

Quando o preço desses títulos verdes começou a cair, esse aditivo foi acionado. Imediatamente, o Deutsche Bank exigiu o depósito de garantias adicionais para cobrir a desvalorização.

Essa exigência gerou um risco de efeito dominó na Ambipar, que poderia gerar um rombo de R$ 10 bilhões no caixa da empresa. Isso porque quase todos os contratos financeiros da Ambipar contêm cláusulas de vencimento cruzado, em uma espécie de efeito cascata de cobrança entre os credores.

Foi aí que a empresa correu para a Justiça para se proteger disso, com uma medida que funciona como um passo anterior à recuperação judicial. Agora, no entanto, precisou recorrer à recuperação.

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Sr. Lobo

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