Faltando menos de uma semana para o primeiro turno, a eleição presidencial entrou em uma fase diferente. O universo de eleitores realmente disponível para persuasão diminuiu, as bases dos dois principais candidatos estão mais consolidadas e a disputa passa a depender cada vez mais de voto útil, mobilização e comparecimento.
Ao mesmo tempo, o mercado começa a olhar para o domingo não apenas como uma fotografia eleitoral, mas como um evento capaz de alterar a distribuição dos cenários econômicos para 2027.
As pesquisas divulgadas nesta segunda-feira (28) ajudam a explicar essa mudança de fase. A Nexus mostra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno; a Quaest aponta 39% a 34%.
Nos dois levantamentos, a diferença numérica é de cinco pontos, enquanto as simulações de segundo turno continuam apertadas: 46% a 44% no BTG/Nexus e 42% a 42% na Quaest.
O Datafolha mais recente também havia mostrado uma disputa estreita no confronto direto, com 47% a 45%. Em outras palavras, a fotografia de primeiro turno tem hoje uma vantagem numérica tímida para Lula, mas o segundo turno permanece estatisticamente muito competitivo.
Há um detalhe especialmente importante. Na Nexus, 87% dos eleitores que já escolheram um candidato afirmam não pretender mudar de voto; entre os eleitores de Lula, esse percentual chega a 92%, e entre os de Flávio, a 91%. O Datafolha também mostra alto grau de convicção entre os dois principais eleitorados.
Isso reduz o espaço para uma grande migração direta entre os polos e desloca a batalha para os indecisos, para a abstenção e, principalmente, para os votos hoje distribuídos entre Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e as demais candidaturas.
A batalha pelo voto útil
É aqui que o voto útil passa a importar de maneira desproporcional. Na Nexus, Cury, Caiado, Renan e Zema somam 15% das intenções de voto. Na Quaest, esse grupo reúne 12%.
Naturalmente, não se trata de um bloco homogêneo nem de votos automaticamente transferíveis. Ainda assim, em uma disputa na qual os dois principais candidatos já apresentam bases muito rígidas, a movimentação de dois ou três pontos entre candidaturas menores pode alterar de forma relevante a ordem de chegada, a distância entre os finalistas e a narrativa política que acompanhará o início do segundo turno.
Essa narrativa importa porque o primeiro turno não termina politicamente no domingo à noite. O resultado influencia o ambiente das semanas seguintes: capacidade de mobilização, busca por apoios, discurso de voto útil, disposição das bases e leitura dos partidos que precisarão decidir como se posicionar.
Há também um precedente histórico que o mercado conhece. Nas seis eleições presidenciais brasileiras que chegaram ao segundo turno entre 2002 e 2022, o candidato mais votado na primeira rodada acabou vencendo a segunda.
Esse é um registro histórico, não uma regra e muito menos uma previsão para 2026. Mas é suficiente para que a ordem de chegada seja tratada pelos agentes como uma informação relevante na atualização dos cenários para o segundo turno.
Para o investidor, portanto, o ponto não é transformar esse padrão em uma aposta eleitoral. É entender que um primeiro turno diferente do esperado pode provocar reprecificação imediata.
Se o resultado fortalecer, aos olhos do mercado, uma agenda econômica associada a maior disciplina de gastos, estabilização da dívida e menor necessidade de estímulos fiscais, a curva de juros pode reagir antes mesmo de qualquer anúncio formal de política econômica.
Se a leitura caminhar na direção oposta, com percepção de maior expansão fiscal ou menor compromisso com a trajetória da dívida, o prêmio de risco tende a aumentar. A urna entra nos preços por meio das expectativas.
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O fiscal continua sendo a ponte entre a eleição e a carteira
Esse é o principal canal de transmissão desta eleição para os ativos brasileiros. Termos como “pró-mercado” ou “fiscalista” são úteis apenas até certo ponto.
O que realmente interessa é o que existe por trás do rótulo: trajetória de despesas, qualidade e permanência das receitas, regra fiscal, política para benefícios obrigatórios, governança das estatais, disposição para rever gastos e, sobretudo, capacidade política de aprovar medidas no Congresso.
O próximo governo receberá uma economia com pouco espaço para erros. O IPCA-15 de setembro avançou 0,70%, acima dos 0,55% esperados, e a inflação em 12 meses acelerou de 4,24% para 4,47%. A piora não ficou restrita aos itens mais voláteis.
A média dos cinco núcleos passou de 3,8% para 4,2% na métrica trimestral anualizada; os serviços subjacentes avançaram de 4,5% para 5,1%; e os serviços intensivos em trabalho, de 6,8% para 7,1%.
Ao mesmo tempo, as projeções de crescimento vêm sendo revisadas para baixo. É a combinação incômoda de uma economia que perde velocidade sem entregar uma desinflação suficientemente rápida.
Isso limita o espaço do Banco Central. A Selic está em 13,75%, e a discussão sobre novos cortes depende não apenas da atividade, mas também da inflação, do câmbio, do petróleo e das expectativas. O Brent voltou a superar US$ 100 por barril, enquanto o Treasury de dez anos flerta com níveis próximos de 5,2%.
Ou seja, mesmo que o cenário doméstico melhore, o Brasil continuará operando em um ambiente internacional de custo de capital elevado. É justamente por isso que o fiscal ganha importância adicional: quanto menor o prêmio de risco doméstico, menos o país precisa somar problemas internos a um mundo que já oferece juros altos e energia cara.
A mecânica é relativamente simples. Quando investidores enxergam uma trajetória mais crível para estabilizar a dívida, exigem menos remuneração para financiar títulos de prazo mais longo.
O primeiro movimento tende a aparecer na parte longa da curva de juros e nas NTN-Bs. Uma redução do prêmio de risco também pode favorecer o real, tanto pela melhora da percepção sobre solvência quanto pelo aumento relativo da atratividade dos ativos locais. E, na bolsa, o efeito costuma se espalhar principalmente para empresas mais sensíveis ao custo de capital, ao crédito e ao ciclo doméstico.
O movimento inverso também é verdadeiro. Se o resultado eleitoral levar o mercado a incorporar mais expansão de gastos sem fonte permanente de financiamento, juros longos podem abrir, o câmbio pode se depreciar e o custo de capital das empresas subir.
Nesse ambiente, até mesmo um Banco Central disposto a reduzir a Selic encontra menos espaço para avançar, porque parte da flexibilização na ponta curta pode ser neutralizada pela abertura da curva longa. É por isso que, em uma eleição, o fiscal costuma chegar à carteira antes da posse do novo governo.
Primeiro lugar pode valer mais do que alguns pontos
Na reta final, há uma tendência natural de olhar apenas para a diferença percentual entre os candidatos. Mas, para o mercado, a ordem de chegada pode carregar informação própria.
Um resultado de primeiro turno que mostre desempenho mais forte do que o esperado de uma candidatura cuja plataforma seja percebida como mais comprometida com consolidação fiscal pode levar investidores a revisar rapidamente suas hipóteses sobre 2027.
Não porque o primeiro turno determine o vencedor seguinte, mas porque ele oferece informação nova sobre mobilização, voto útil, capacidade de agregar apoios e tamanho efetivo das bases eleitorais.
Esse ponto é particularmente importante porque os levantamentos de segundo turno continuam muito apertados. Em cenários assim, o mercado tende a reagir não apenas ao nível das pesquisas, mas à direção das surpresas.
Se uma candidatura chega ao domingo abaixo do esperado, o preço dos ativos pode incorporar a percepção de que a agenda econômica associada a ela perdeu espaço.
Se chega acima, ocorre o contrário. O que muda é a distribuição dos cenários embutida nos preços, e não uma certeza sobre o resultado eleitoral.
É também por isso que a batalha pelo voto útil tem relevância financeira. O eleitor de candidaturas menores não decide apenas quem estará no segundo turno — o que já está bastante encaminhado nas pesquisas atuais —, mas ajuda a definir a força relativa com que os dois principais nomes entrarão na etapa seguinte.
Em um ambiente polarizado e com alta fidelidade das bases, esse eleitor marginal pode carregar um peso maior do que seu tamanho sugere.
O mercado não vota; ele atualiza preços
Vale insistir em uma distinção importante. Mercado e sociedade respondem a critérios diferentes. O investidor precifica fluxo de caixa, dívida, inflação, juros, crescimento e risco regulatório; o eleitor decide a partir de um conjunto muito mais amplo de valores, interesses e prioridades. Confundir essas duas dimensões empobrece a análise.
Por isso, o ponto central desta reta final é compreender o mecanismo de transmissão. Se o primeiro turno elevar a expectativa de uma política fiscal mais previsível e de uma trajetória de dívida mais administrável, a reação mais natural é uma redução do prêmio exigido nos ativos locais.
Se aumentar a incerteza sobre gastos, arrecadação e governabilidade, a reação tende a ser de maior prêmio. Em ambos os casos, juros longos e câmbio devem funcionar como os termômetros mais rápidos, enquanto a bolsa traduzirá essa mudança de custo de capital para os diferentes setores.
Há ainda uma variável que não pode ser esquecida: o Congresso. Nenhum presidente governa o orçamento sozinho. O verdadeiro teste de qualquer promessa de consolidação fiscal será sua capacidade de formar maioria, definir prioridades e transformar discurso em legislação.
Uma candidatura pode chegar ao segundo turno com uma mensagem econômica bem recebida, mas sem base parlamentar suficiente para executá-la. O inverso também vale. Por isso, a leitura do domingo precisará combinar Presidência, composição do Legislativo e sinais sobre a futura equipe econômica.
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Domingo é o começo, não o fim
A eleição chega à última semana com um paradoxo. O eleitorado está mais decidido, mas o mercado talvez tenha mais motivos para mudar de opinião. Isso acontece porque os preços não precisam esperar o resultado final para reagir.
Uma pesquisa, um debate ou a distribuição do voto útil pode alterar a leitura sobre o primeiro turno; o primeiro turno, por sua vez, pode alterar a leitura sobre a agenda econômica que chegará a 2027.
Nesse processo, o fiscal continuará sendo o elo mais importante. A inflação voltou a incomodar, a atividade perde força, o petróleo permanece elevado e os juros globais estão em patamares exigentes.
O próximo governo, qualquer que seja ele, terá menos espaço para comprar crescimento com gasto público sem pagar um preço maior na curva de juros. A diferença estará na credibilidade com que enfrentará essa restrição.
Até domingo, portanto, vale acompanhar menos a ansiedade causada por cada oscilação de um ponto e mais três movimentos:
- para onde migra o voto útil
- qual candidatura chega ao primeiro turno com maior força relativa
- que leitura fiscal o mercado faz desse resultado.
Historicamente, a liderança no primeiro turno carregou informação importante para a disputa seguinte, mas 2026 continua aberta e as pesquisas de segundo turno mostram isso.
Para os ativos locais, a mensagem é mais simples: a eleição passa pela urna, mas chega à carteira pela dívida pública, pelos juros e pelo câmbio.
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