Quem saiu das debĂȘntures isentas para se refugiar no CDI cometeu um erro, diz gestor da Absolute; entenda

Se vocĂȘ saiu de fundos de crĂ©dito incentivados — aqueles que investem em debĂȘntures de infraestrutura com isenção de imposto de renda (IR) — depois dos sustos no começo deste ano, nĂŁo estĂĄ sozinho.

RecuperaçÔes judiciais, reestruturaçÔes de dívida, manchetes negativas e retorno no vermelho fizeram muitos investidores pessoa física migrarem para a renda fixa conservadora: CDBs, Tesouro Selic e fundos de liquidez.

A lógica parecia simples: por que correr risco no crédito se o CDI (ou a Selic) continua pagando tão bem?

Em entrevista ao Seu Dinheiro, Paulo Bokel, head de crédito privado da Absolute Investimentos, afirma que essa conclusão faz sentido, mas é imediatista e não considera o cenårio da renda fixa como um todo.

"NĂŁo dĂĄ para vocĂȘ falar que um produto Ă© bom ou ruim isoladamente, diante de um cenĂĄrio de estresse. O investidor tem que se perguntar quais outras opçÔes estĂŁo na mesa, e as opçÔes nĂŁo sĂŁo melhores", afirma.

Para Bokel, a renda fixa isenta equiparĂĄvel Ă s debĂȘntures de infraestrutura, que sĂŁo as LCIs e LCAs, hoje em dia estĂŁo escassas e remuneram bem menos que no passado recente.

"Um ano atrĂĄs vocĂȘ conseguia comprar uma LCA pagando 100%, 99% do CDI. Hoje, com sorte, vocĂȘ encontra uma LCA que paga 80%, 90% do CDI", diz o gestor.

Ele acredita que a pergunta certa seria se as debĂȘntures incentivadas valem mais a pena do que as alternativas de renda fixa que hoje disputam espaço na carteira do investidor, entre isentas e tributadas.

E, na visĂŁo de Bokel, as debĂȘntures incentivadas valem mais a pena.

VocĂȘ saiu pelo motivo certo?

Foram meses de notĂ­cias ruins. Liquidação do banco Master e seus correlatos, recuperação extrajudicial de RaĂ­zen e PĂŁo de AçĂșcar, queda de ratings, reavaliaçÔes de empresas e por aĂ­ vai.

Não foram poucos os episódios que aumentaram a desconfiança do investidor em relação ao crédito privado.

Mas, segundo Bokel, o problema nĂŁo foram os acontecimentos em si, mas a dificuldade dos investidores de entender por que um produto de renda fixa estava marcando prejuĂ­zo.

O gestor afirma que muitos investidores viram as debĂȘntures incentivadas e os fundos de crĂ©dito registrarem desempenhos negativos e concluĂ­ram que as empresas estavam quebrando.

"A pergunta que se instala no investidor é: 'como uma empresa pode continuar saudåvel enquanto o preço do título dela cai?'", diz.

A resposta Ă© a marcação a mercado, algo que Bokel acredita que os investidores de renda fixa ainda tĂȘm dificuldade em entender.

TĂ­tulos de renda fixa tĂȘm oscilação de preço e taxa todos os dias. Quando sai uma notĂ­cia muito ruim sobre uma empresa, o preço da sua debĂȘnture cai — mas isso nĂŁo significa que ela estĂĄ quebrando.

É mais ou menos o que acontece com as açÔes na bolsa de valores.

No começo do ano, como teve uma avalanche de notĂ­cias ruins, muitas debĂȘntures caĂ­ram de preço, o que prejudicou o desempenho dos fundos incentivados tambĂ©m.

Na opinião do gestor da Absolute, não entender esse mecanismo foi o que fez parte dos investidores abandonarem o crédito privado pelo motivo errado: saíram por medo.

Mea culpa

Para o gestor, a prĂłpria indĂșstria errou ao ajudar a criar expectativas irreais nos investidores sobre os fundos de crĂ©dito, incentivados ou tradicionais.

Segundo Bokel, quando os fundos estavam entregando retornos equivalentes a 120% ou 130% do CDI, poucos gestores se preocuparam em alertar os investidores de que aquele desempenho extraordinĂĄrio nĂŁo seria permanente.

"O objetivo dos fundos incentivados Ă© pagar CDI mais um prĂȘmio. Mas estamos falando de algo como 107%, 108% do CDI. Se o fundo estĂĄ dando 120%, em algum momento no futuro ele vai render menos que o CDI", diz ele.

O que aconteceu é que investidores e gestores se acostumaram a enxergar aqueles retornos acima da média. Quando a maré virou e as cotas começaram a oscilar, era tarde demais para tentar explicar.

Agora, os bilhĂ”es de reais que saĂ­ram dos fundos e das debĂȘntures fizeram os preços dos papĂ©is caĂ­rem e as taxas melhorarem. O resultado para quem ficou investido foi que os tĂ­tulos passaram a oferecer retornos maiores do que antes.

Pode parecer contraintuitivo o investimento ser mais atrativo quando vale menos. Mas, na pråtica, é quando os títulos remuneram melhor o investidor. Afinal, com o preço mais baixo, o potencial de retorno do ativo é maior.

Na euforia — que durou atĂ© o começo desse ano —, a demanda por debĂȘntures era tanta que as taxas nĂŁo estavam pagando adequadamente o risco de crĂ©dito. Mas essa relação melhorou.

Quem compra agora encontra uma remuneração melhor do que a disponível no período em que os fundos estavam lotados.

Bokel diz que muitos investidores olharam apenas para a perda momentĂąnea e ignoraram o aumento do retorno esperado dali para frente.

A ressaca conservadora

A oportunidade estĂĄ aĂ­, mas o gestor nĂŁo vĂȘ intenção dos investidores em aproveitar.

Com a proximidade das eleiçÔes e as discussĂ”es sobre a trajetĂłria fiscal brasileira, a sensação da indĂșstria Ă© de compasso de espera.

Segundo ele, grande parte dos investidores prefere permanecer na renda fixa conservadora enquanto aguarda uma definição do cenårio político e econÎmico.

"O cara estå confortåvel no CDI. Ele pensa: 'pÎ, tem uma eleição daqui a dois meses. Decido o que vou fazer depois'. A sensação que a gente tem é que o pessoal não resgata e também não aplica", diz Bokel.

Mas, enquanto os investidores esperam a prĂłxima onda para se movimentar, o gestor se preocupa com o impacto que isso pode gerar.

Seu maior receio hoje não é uma onda generalizada de novos problemas corporativos, mas uma onda de resgate mais intensa por causa da marcação a mercado dos papéis.

Embora haja um marasmo na alocação das debĂȘntures e dos fundos de crĂ©dito neste momento, o perĂ­odo eleitoral deve ser intenso na volatilidade de preços.

Do lado corporativo, Bokel afirma que as grandes empresas fizeram o dever de casa e alongaram suas dĂ­vidas nos Ășltimos anos. Entre os nomes com grau de investimento (high grade), o gestor nĂŁo vĂȘ motivos para preocupação com renegociação de dĂ­vida ou algo do tipo.

Sua preocupação é que o medo do investidor gere mais volatilidade do que os próprios balanços das empresas.

Afinal, vale a pena investir em debĂȘntures incentivadas agora?

Para Bokel, a resposta Ă© sim — mas isso estĂĄ longe de ser um convite para aumentar indiscriminadamente a exposição ao crĂ©dito privado.

"Não acho que faz sentido o investidor aumentar a posição. Não é a hora de ter uma posição muito maior do que o teu perfil comportaria", afirma.

Agora, se vocĂȘ Ă© um investidor altamente concentrado em CDI, o gestor acredita que vale considerar uma pequena alocação em debĂȘntures incentivadas, especialmente em estratĂ©gias ligadas Ă  inflação (IPCA+).

"Estamos no melhor momento dos isentos dos Ășltimos anos. Estamos falando de 2,30 pontos percentuais de benefĂ­cio fiscal em relação a um CDB, um tĂ­tulo tributado. Para quem nĂŁo tem posição, Ă© uma Ăłtima alocação", diz.

O gestor nĂŁo faz distinção entre a debĂȘnture em si e os fundos incentivados. Ele acredita que os dois produtos sĂŁo bons, desde que o investidor nĂŁo concentre a carteira. No sentido de diversificação, portanto, os fundos apresentam vantagem.

Aqui, Ă© importante lembrar que crĂ©dito privado nĂŁo tem cobertura do Fundo Garantidor de CrĂ©ditos (FGC). A garantia depende das condiçÔes financeiras do prĂłprio emissor, por isso Bokel fala das debĂȘntures high grade, consideradas mais seguras do ponto de vista financeiro.

No final, o gestor faz uma Ășltima ponderação: "vale a pena, mas apenas se vocĂȘ entendeu que a volatilidade faz parte do produto".

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Sr. Lobo

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