A novela das 21h tem um novo concorrente: a febre dos microdramas no celular já movimenta US$ 11 bilhões

Passou o tempo em que famílias inteiras se sentavam à sala em horário nobre para acompanhar a novela das 21h. Primeiro veio o streaming, que deu ao espectador o poder de escolher o que e quando assistir. Agora, o futuro da teledramaturgia parece caber na palma da mão e dura menos de dois minutos por capítulo.

São as chamadas novelas verticais, microdramas ou novelinhas. Produzidas e pensadas para o celular, elas têm episódios curtos, tramas exageradas e ganchos criados para prender a atenção do espectador em poucos segundos. O fenômeno, impulsionado principalmente pela Geração Z, nasceu na Ásia e rapidamente atraiu uma enxurrada de empresas de entretenimento e comunicação no Brasil e no mundo.

Só no primeiro semestre de 2026, Globo, TikTok, Abril e produtoras independentes lançaram plataformas próprias ou anunciaram investimentos nos microdramas. O movimento marca uma nova disputa pela audiência e abre um mercado que deve movimentar US$ 14 bilhões em 2026, segundo estimativas da consultoria Omdia.

A aposta das grandes empresas de mídia

Erik Carvalho, diretor de Distribuição, Parcerias e Novos Negócios do Grupo Abril, explicou ao Seu Dinheiro que a ideia de entrada no mercado de novelinhas surgiu após a empresa identificar uma demanda já existente no Brasil. “Hoje, o público brasileiro é o maior consumidor mundial do ReelShort [...] Esse dado mostrou que havia demanda real ainda não atendida por aqui”, afirma.

De acordo com Carvalho, o público do aplicativo lançado em março Pop! Pop! Pop!, é amplo, com usuários entre 18 e 60 anos. A plataforma, porém, não vê concorrência direta com redes como TikTok, Reels e YouTube Shorts, mas enxerga essas ferramentas como vitrines para atrair audiência. “Estamos ali oferecendo pílulas das novelinhas e direcionando para o app [...] uma lógica mais próxima de um streaming de novelas do que de uma rede social.”

Na fase de lançamento, todo o conteúdo está disponível gratuitamente. A estratégia é priorizar a construção de audiência e retenção antes de acelerar a monetização. No modelo final, a receita deve combinar publicidade, compra avulsa de episódios e assinatura mensal.

Erik Carvalho, diretor de Distribuição, Parcerias e Novos Negócios do Grupo Abril,
Erik Carvalho, diretor de Distribuição, Parcerias e Novos Negócios do Grupo Abril - Divulgação

Novos apps na disputa

O app norte-americano ReelShort se tornou a principal porta de entrada do público brasileiro para o gênero. Foi na plataforma que estreou, em maio de 2025, A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário, considerada a primeira novela vertical brasileira.

Não demorou muito para o mercado brasileiro passar a ganhar, em poucos meses, plataformas próprias dedicadas às novelinhas. Em março, o Grupo Abril lançou o Pop! Pop! Pop!, com produções brasileiras e títulos licenciados. A Globo estreou no mês seguinte o GloboPop, com conteúdos curtos do universo da emissora.

Já o TikTok colocou no ar o app PineDrama em janeiro sem muito alarde. Já o mais velho app Tele Tele, criado por nomes do audiovisual como Chico Mattoso, Gustavo Mayrink, Thiago Teitelroit, Camila Guerreiro e Antonio Prata, entrou na disputa em setembro passado.

No fim de 2025, a atriz Jade Picon interpretou a vilã da novela vertical Tudo Por Uma Segunda Chance, no Globoplay. Mas o formato não é só um território exclusivo de novos rostos. A veterana Giulia Gam, por exemplo, integra o elenco de O Acerto de Contas das Gêmeas Trocadas, novelinha lançada no Globoplay na semana passada. Ela, inclusive, já afirmou publicamente não ver o formato como algo “inferior” à teledramaturgia tradicional.

Jade Picon é protagonista na novelinha "Tudo Por Uma Segunda Chance", no Globoplay
Jade Picon é protagonista na novelinha "Tudo Por Uma Segunda Chance", no Globoplay - Imagem: Reprodução/Instagram @tvglobo

Como tudo começou

A febre dos microdramas começou na China por volta de 2018, impulsionada pela onda de vídeos curtos do Douyin, a versão chinesa do TikTok. A partir de 2019, o formato ganhou força com plataformas como a Kuaishou, conhecida no Brasil como Kwai, que passou a financiar produções de ficção curta voltadas ao consumo pelo celular.

Conhecido na China como duanju, o gênero cresceu ainda mais durante a pandemia de Covid-19. Na época, produções com elencos menores e sem grandes estruturas de gravação se tornaram uma alternativa rápida e barata de entretenimento.

As histórias seguem fórmulas populares: comédias românticas, disputas por herança, romances com bilionários disfarçados e até tramas com vampiros e lobisomens. Apesar dos enredos previsíveis, o modelo se mostrou lucrativo. Em 2024, a receita do setor na China já havia superado a bilheteria dos cinemas do país.

No Brasil, o público começou a ter contato com o formato entre 2021 e 2022, por meio do Kwai. A plataforma lançou o projeto TeleKwai em parceria com produtores da América Latina para incentivar a criação de dramas curtos seriados. Nesse movimento, nomes como o da ex-bailarina Markelly Oliveira ganharam notoriedade. Ela ficou conhecida como “Rainha do Kwai” ao reunir milhões de seguidores com suas novelinhas na plataforma chinesa.

Os números por trás da febre

O apetite do público tem se traduzido em dinheiro. Segundo a consultoria Omdia, o mercado global de minidramas movimentou cerca de US$ 11 bilhões em 2025. A expectativa é que chegue a US$ 14 bilhões até o fim de 2026, com aproximadamente US$ 3 bilhões vindos de fora da China, principalmente de Estados Unidos e América Latina.

O valor ainda é pequeno perto do faturamento de gigantes do streaming, como a Netflix, que arrecadou US$ 45 bilhões em 2025. Mas o crescimento chama atenção: projeções indicam que o setor de microdramas pode alcançar US$ 26 bilhões anuais até 2030.

A expansão também aparece no comportamento dos espectadores. Segundo o relatório State of Mobile 2026, da Sensor Tower, os downloads globais de plataformas de dramas curtos cresceram 186% em um ano e chegaram a 733 milhões apenas no quarto trimestre de 2025. O volume superou, no período, a soma de downloads de serviços tradicionais de streaming, como Netflix e Disney+.

Nos Estados Unidos, principal mercado do gênero, aplicativos como ReelShort e DramaBox conquistam principalmente um público jovem acostumado ao consumo de vídeos curtos. As receitas trimestrais dessas plataformas saltaram de cerca de US$ 178 milhões no primeiro trimestre de 2024 para quase US$ 700 milhões no mesmo período de 2025.

No Brasil, os sinais de crescimento já aparecem. O país está entre os mercados que mais impulsionam o ReelShort no mundo, ao lado de Indonésia e México. Por isso, passou a ser uma das principais apostas de expansão das plataformas de microdramas.

Bastidores: como se produz uma novela em poucos dias

Se o consumo mudou, a produção também precisou se reinventar. Essa transformação ficou evidente na conversa com Emanuel Orengo, diretor da Cine8 Filmes, e Luciano Romanieli, produtor executivo da produtora. A empresa é responsável por títulos como A Vida Dupla da Herdeira Bilionária e Você Pertence a Mim, ambos lançados pelo ReelShort.

Segundo Orengo, para produzir uma novelinha não basta apenas reduzir a duração dos episódios. Foi preciso criar uma nova linguagem, com o conflito central apresentado nos primeiros segundos e cada capítulo terminando em um gancho capaz de levar o espectador ao próximo.

Segundo Romanieli, uma novela vertical costuma exigir cerca de quatro semanas de pré-produção, entre sete e nove dias de filmagem e mais seis ou sete semanas de pós-produção. O prazo reduzido exige um planejamento detalhado antes do início das gravações.

Emanuel Orengo, diretor da Cine8 Filmes, e Luciano Romanieli, produtor executivo da produtora
Emanuel Orengo, diretor da Cine8 Filmes, e Luciano Romanieli, produtor executivo da produtora - Imagem: Arquivo Pessoal

“Antes da primeira diária praticamente tudo já foi decidido. Locações, figurinos, cronograma, ordem das cenas, logística, equipe, equipamentos.”

Como cada episódio tem cerca de um minuto e meio, uma mesma cena pode ser distribuída em vários capítulos. Muitas vezes, o mesmo espaço é transformado em cenários diferentes com pequenas mudanças de decoração e enquadramento, reduzindo custos e deslocamentos.

A proximidade da câmera também altera a atuação e a direção. “A câmera fica naturalmente mais próxima dos atores e qualquer emoção ganha muito mais força”, explica Orengo. Para ele, o formato vertical cria uma sensação de intimidade difícil de alcançar no cinema tradicional.

Sobre orçamento e equipe, Romanieli resume: “O orçamento naturalmente é menor do que uma novela tradicional, mas isso não significa que seja uma produção mais simples. Na verdade, exige uma organização ainda maior”.

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Sr. Lobo

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