Sempre em busca de novos olhares sobre a literatura, a FLIP – Festa Literária de Paraty tem o costume de renovar seus curadores literários com frequência. A curadora da 24ᵃ edição é Rita Palmeira.
Editora, crítica literária, curadora do festival Livros no Centro e mediadora de mesas na FLIP desde 2017, Rita Palmeira conta ao Seu Dinheiro sobre a escolha de Orides Fontela como a homenageada do ano. Além disso, comenta a dificuldade na captação de recursos e fala sobre o pioneirismo da FLIP.

A homenageada
A poeta Orides Fontela (1940–1998) é considerada uma das vozes centrais da poesia brasileira da segunda metade do século 20. Foi premiada com o Jabuti por Alba (1983) e o Prêmio APCA por Teia (1996). Apesar do reconhecimento crítico, a poeta passou os últimos anos na penúria e sua poesia não chegou ao grande público.
Rita Palmeira conta que conheceu a sua poesia ainda na graduação “por meio do professor Haquira Osakabe, um grande amigo da Orides, a primeira que ouvi falar da Hilda Hilst e da Orides Fontela. Fui ler e achei incrível. Ela ficou no meu radar”.
“Anos depois, já trabalhando no mercado editorial, percebi que ela era uma poeta muito lida na academia, muito celebrada pelos poetas, louvada como uma das grandes poetas do século 20, mas desconhecida pelo grande público.”
Entre a obra e fama
Rita analisa o descompasso entre a celebração pela crítica e desconhecimento do grande público, acreditando que a autora é “absolutamente canonizada” pela crítica literária, mas que sua obra parou de circular, apesar de ter recebido uma edição de suas obras completas pela editora Hedra, e Poesia Reunida pela Cosac Naify (2006) – que ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), sugerindo que a personalidade de Orides Fontela teve um papel importante nesse processo:
“A minha sensação é de que a obra dela ficou muito escanteada e o que se sobressaiu foi o anedotário ao seu redor. Por exemplo, ‘Orides chegou e rasgou as páginas de um livro’, ou quando jogou um copo d’água em alguém. Essas coisas acabaram se sobressaindo em relação à obra dela”.
“Acho que essa ideia da pessoa difícil tem um preço muito mais alto quando essa peça é uma mulher. O poeta bêbado é o poeta maldito. Ela é uma poeta premiada, que circulou muito, e não se falava dela, e quando se falava, era sempre em referência a um anedotário que cerca a Orides, que ela era uma pessoa difícil, complicada, ninguém conseguia lidar com ela, era instável emocionalmente.”
“Quem teve a sensibilidade de falar que ela é um talento e nada disso importa, foi o maior crítico literário brasileiro, Antonio Candido. Depois de ela ter aprontado várias, ele disse ‘fazer o quê? Ela é a nossa Rimbaud’. Ele entendeu que a Orides tinha essa dimensão sanguínea e até uma instabilidade psíquica.”

O caminho e o fim
Ainda que fosse amiga de importantes intelectuais uspianos, entre eles Marilena Chauí e Davi Arrigucci Júnior, Orides Fontela nunca conseguiu alcançar a estabilidade financeira, e passou seus últimos anos abrigada na Casa do Estudante – organização gerida pelos estudantes do centro acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, conhecida popularmente como Sanfran –, por onde passou também o ex-presidente Michel Temer.
“Seu último livro, Teia (1996), saiu pela Geração Editorial, que não é uma casa editorial de poesia. Na noite de lançamento ela disse que foi um lançamento cheio, mas um lançamento jurídico, porque só estavam os advogados que eram seus amigos mais jovens que tinham passado pela Casa do Estudante e estudado na Sanfran, que foram os amigos que ajudaram a encontrá-la e enterrá-la”.
“Esse foi o final de Orides, essa figura que foi envelhecendo, mas não morreu tão velha assim. Só se preocupava com a sua obra e não tinha nenhum apego material, só queria um canto para ler, escrever e dormir”.
"Não há o que reparar"
Perguntada se a escolha de Orides é uma tentativa de reparação, Rita Palmeira esclarece: “de modo algum, ela é uma poeta premiada, então não há o que reparar”.
“O que a FLIP pode fazer é contribuir com o alargamento do número de leitores de um autor homenageado, mas eu não chamaria isso de reparação, não é preciso haver reparação. Ela não foi esquecida, não é uma poeta que não foi reconhecida em vida. A questão é jogar mais luz nessa poesia tão incrível”.
Em preparação à FLIP, Orides Fontela recebeu uma edição especial da revista Quatrocincoum e um perfil na piauí, assinado por Débora Rubin.
Rita Palmeira também relaciona a escolha de uma poeta ao momento atual da literatura brasileira:
“Identifico uma força muito pulsante da poesia brasileira, temos eventos muito importantes e até livrarias com seções dedicadas exclusivamente à poesia. Ao mesmo tempo em que a presença feminina é muito significativa, dentre os contemporâneos os mais lidos estão as poetas, nomes como Ana de Marques, Mar Becker e Marília Garcia”.
O momento da FLIP
O orçamento da FLIP depende, em grande parte, de fundos captados através da lei Rouanet. Eventos como eleições e Copa do Mundo tornam essa captação ainda mais difícil e o orçamento para a FLIP deste ano ficou bem abaixo do esperado. Perguntada se o orçamento tinha afetado a curadoria, Rita Palmeira esclareceu a situação e apostou em parcerias:
“A captação flutua muito em função de anos específicos, e estamos num ano mais difícil, que é um ano de Copa do Mundo e eleição, e os patrocinadores ficam de olho na Copa. A FLIP já enfrentou muitos momentos difíceis e sabe navegar. Hoje a festa tem um orçamento anual, o que deveria facilitar, mas não é todo mundo que investe em cultura no Brasil.”
Um estudo encomendado pelo Governo Federal à FGV em 2018 mostrou que o investimento de R$ 3,5 milhões resultou num impacto econômico de R$ 46,9 milhões, significando que cada real investido na FLIP através da lei Rouanet resultou em R$ 13,42 reais revertidos para a sociedade, fomentando restaurantes, pousadas e outros comércios locais de Paraty.
“Nesses anos de maior dificuldade de captação a gente tem que ampliar o número de parcerias. Para os autores internacionais, por exemplo, procurar ajuda dos consulados, embaixadas e braços culturais. Hoje, com quase vinte e cinco anos de FLIP, muitas já têm uma relação estreita conosco e querem contribuir. Muitas representações internacionais contribuem para que a gente possa montar uma programação legal, como da União Europeia, França, Itália, Espanha, Portugal e Ucrânia.”
A importância das parcerias
A curadora ressalta a importância da parceria com editoras, este ano são quarenta e quatro casas, e comemora o aumento no número de autores internacionais nesta edição, apesar da guerra no Irã ter afetado o preço das passagens aéreas. A FLIP deste ano traz, por exemplo, a inglesa Zadie Smith e o franco-argelino Kamel Daoud.
Também vão para Paraty a angolana Ana Paula Tavares, laureada pelo último prêmio Camões e a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida, duas vezes vencedora do prêmio Oceanos.
Sempre preocupada em dialogar com o presente, esta edição da FLIP convidou o ucraniano Andrei Kurkov, autor de Ucrânia – Diário de uma guerra (Carambaia, R$ 139,90), para uma mesa sobre a guerra com a canadense Maria Reva, autora de Extinção (DBA, R$ 104,90).
A FLIP e as outras Festas Literárias
O modelo da FLIP e mesmo o prefixo “fli” vem sendo adotado por diversas festas literárias ao redor do país, perguntada se essa proliferação diluiu a importância do festival fluminense Rita Palmeira discorda e acredita que ainda há muito espaço para festivais literários no país:
“A FLIP segue sendo a festa literária mais importante do país. O maior indício do sucesso da FLIP é que tudo virou ‘fli’ alguma coisa, a festa segue sendo referência. Cada um tem coisas muito particulares, mas a FLIP tem uma importância muito grande por ser uma festa consolidada e ter um modelo, que é adotado por outros festivais.”
“O Paulo Werneck foi curador da FLIP por três anos, e ele fez uma feira muito diferente em São Paulo, mas que traz uma série de coisas da FLIP.”
Sobre a competição com esses festivais, a curadora completa dizendo que vê “um cenário muito legal de proliferação de feiras, festas e festivais literários no Brasil, que só comprova como tem espaço no Brasil para isso. O Brasil é grande e a literatura também, e devemos trabalhar para que tenhamos cada vez mais festivais”.
FLIP 2026 – A programação
A 24ᵃ edição da FLIP acontece de 22 a 26 de julho. Confira a programação abaixo.
FLIP 2026: quarta-feira, 22 de julho
Entra furtivamente a luz
Quarta-feira, 22 de julho, 19h30
Marília Garcia e Augusto Massi
FLIP 2026: quinta-feira, 23 de julho
Saber de cor o silêncio
Quinta-feira, 23 de julho, 10h
José Tolentino Mendonça e Edimilson de Almeida Pereira
Não vim, não vi, não havia guerra alguma
Quinta-feira, 23 de julho, 12h
Andrei Kurkov e Maria Reva
Mas para que serve o pássaro? O pássaro não serve
Quinta-feira, 23 de julho, 15h
Paulliny Tort e Andréa del Fuego
A infância volta devagarinho
Quinta-feira, 23 de julho, 17h
Maria Esther Maciel e Andrea Bajani
Falo do que impede o sono
Quinta-feira, 23 de julho, 19h
Kamel Daoud e Djaimilia Pereira de Almeida,
Do livro ao palco: Dalton, que tinha um cachorro
Quinta-feira, 23 de julho, 21h
Denise Stoklos
FLIP 2026: sexta-feira, 24 de julho
Água parada água parada água parando
Sexta-feira, 24 de julho, 10h
Carmen Stephane e Drauzio Varella
Zé Kleber – A severa arquitetura serenamente prende-nos
Sexta-feira, 24 de julho, 12h
José Godoy e Solano Benítez
Estado de sítio, estado de sido, estase
Sexta-feira, 24 de julho, 13h30
Cármen Lúcia
Como revelar-te se me revelas?
Sexta-feira, 24 de julho, 15h
Flávia Péret e Julieta Correa
E perdura. Apesar.
Sexta-feira, 24 de julho, 17h
Nathacha Appanah e Bethânia Pires Amaro
O tecido: não sabemos qual a trama
Sexta-feira, 24 de julho, 19h
Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell
FLIP 2026: sábado, 25 de julho
A saída é a volta
Sábado, 25 de julho, 10h
Paloma Vidal e Eduardo Halfon
Se o delírio te eleva à potência do abismo
Sábado, 25 de julho, 12h
João Cezar de Castro Rocha e Paulo Schiller
O boi é só, o boi é só, o boi.
Sábado, 25 de julho, 15h
Ana Maria Tavares
Não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago
Sábado, 25 de julho, 17h
Hisham Matar e Milton Hatoum
E este chão não existe, e esta paz é vertigem
Sábado, 25 de julho, 19h
Zadie Smith
FLIP 2026: domingo, 26 de julho
A porta está aberta
Domingo, 26 de julho, 10h
Ève Guerra e Ernesto Mané
Nunca crer no que não canta
Domingo, 26 de julho, 12h
Leonardo Gandolfi e Mateus Baldi
O que faço desfaço, o que amo desamo
Domingo, 26 de julho, 15h30
Eva Baltasar e Susy Freitas
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