Gin, limão, açúcar e bitter. Quatro ingredientes que, quando bem combinados, produzem o drink mais pedido nos bares de São Paulo. De acordo com o Cocktail Trends Report 2025, levantamento do TragoDados que mapeia tendências no principal mercado de bares do país, o Fitzgerald ocupa hoje o topo das vendas nos estabelecimentos premiados da capital paulista.
Criado nos anos 1990 nos Estados Unidos, o drink está longe de ser uma novidade. Todo mundo, em algum momento, já ouviu falar. E para entender o novo boom do Fitzgerald, ou pelo menos tentar, ouvimos alguns bartenders que nos contam histórias, curiosidades e dicas para preparar o queridinho do momento em casa.
Gin Thing
O Fitzgerald nasce em um período específico da coquetelaria americana, quando bartenders estavam resgatando técnicas e ingredientes frescos depois de um período dominado por misturas industriais e receitas simplificadas.
O responsável pela criação é Dale DeGroff, conhecido no meio como King Cocktail, figura central no renascimento da coquetelaria nos Estados Unidos. Ele é creditado por resgatar receitas esquecidas e inclusive por devolver prestígio à profissão de bartender.

A história, contada pelo próprio DeGroff no livro The Craft of the Cocktail, começa com um pedido banal: um cliente do Rainbow Room, entediado com sua Gin Tônica de sempre, queria algo novo e refrescante para o verão. DeGroff improvisou na hora e batizou a mistura de Gin Thing.
O nome, no entanto, destoava um pouco da elegância da casa e foi um frequentador quem propôs a solução: dar à bebida um título literário, no mesmo espírito do drink Hemingway que fazia sucesso na época. A escolha caiu sobre F. Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores americanos do século 20.
“A versão oficial é que ele foi criado na década de 1990 por Dale DeGroff”, conta Ale D'Agostino, do Coda Bar. “Ele tem uma importância grande pois surgiu em um momento no qual a coquetelaria estava retomando as suas origens e iniciando a era que vivemos até hoje. O uso de ingredientes frescos e a própria figura do DeGroff são referências fundamentais. Ele criou esse drink para um bar que foi muito famoso em Nova York, o The Rainbow Room. É uma volta às origens, por isso possui tanto valor.”
“Talvez isso também explique seu sucesso, pois ele já nasce dentro de uma mentalidade contemporânea de equilíbrio e acessibilidade”, reforça Márcio Silva, do Exímia.
Por que São Paulo, por que agora
A cidade tem um histórico de afinidade com bebidas cítricas. Não é difícil traçar uma linha entre a caipirinha e a receptividade que o Fitzgerald encontrou aqui. D'Agostino, por exemplo, vê essa relação: “Ele segue o caminho da bebida cítrica, que lembra um pouco a caipirinha. Não diria que é uma mudança radical de paladar, mas sim que estamos aprendendo a beber outras coisas e a descobrir novos sabores.”
Márcio Silva ainda conecta o drink ao ritmo da metrópole: “Ele traduz muito do paladar contemporâneo da cidade. São Paulo tem um ritmo intenso, uma vida urbana acelerada, e o Fitzgerald funciona muito bem nesse sentido: é vibrante, energético e extremamente gastronômico. Ele tem frescor, acidez, aroma, amargor e equilíbrio, mas sem ser excessivamente complexo para quem bebe. É um drink que conversa tanto com quem está começando a explorar a coquetelaria quanto com consumidores mais experientes.”
E há também um fator de mercado: o crescimento do consumo de gin no Brasil nos últimos anos. Gabriela Fernandes, do Oculto, identifica esse caminho: “Na minha visão, o boom do Fitzgerald em São Paulo está muito ligado à onda de consumo de gin, que cresceu bastante nos últimos anos e segue em alta. Assim como aconteceu com o Negroni, o público costuma ser atraído primeiro pelo destilado e depois pelo perfil sensorial. No caso do Fitzgerald, temos um sabor cítrico, levemente adocicado e muito acessível.”
“Minimalista, mas complexo”
A receita clássica não tem segredo: gin, suco de limão fresco, xarope de açúcar simples e angostura bitter. A proporção mais comum é 60 ml de gin, 22 ml de limão, 22 ml de xarope e duas doses de bitter. Mas a aparente simplicidade, como todo bom drink, esconde sua exigência técnica.
“Simplicidade e profundidade não são opostos", diz Márcio Silva. “Muitas vezes, os maiores clássicos da coquetelaria são justamente os mais simples estruturalmente. Quando um coquetel tem poucos ingredientes, cada detalhe aparece mais. Não existe espaço para esconder desequilíbrios. Por isso, quando bem executado, ele se torna extremamente marcante.”
“Embora seja um coquetel simples em estrutura, essa combinação funciona justamente porque valoriza o equilíbrio. Quando bem executado, o Fitzgerald revela camadas sensoriais interessantes com o frescor do cítrico, a doçura na medida certa e a profundidade aromática do bitter. É minimalista, mas complexo”, completa Gabriela Fernandes.
O Fitzgerald perfeito
Quando o assunto é perfeição, os bartenders preferem falar em equilíbrio. Mas isso não significa que os detalhes sejam irrelevantes. Na verdade, é o contrário.
A escolha do limão, por exemplo, muda o resultado de forma perceptível. Fernandes explica: “O uso do limão siciliano, por exemplo, faz bastante diferença em relação ao Tahiti, porque entrega um resultado mais delicado, levemente mais doce e menos ácido.”
O tipo de gin também não é neutro: cada perfil botânico muda a relação que o destilado terá com o bitter e com a acidez do limão. “Um grande Fitzgerald precisa ter acidez viva, textura limpa e final seco. O açúcar não pode aparecer demais, e o bitter precisa complementar, nunca dominar”, explica Silva.
E o gelo (sim, o gelo) também faz toda a diferença. “No gelo, especificamente, as pessoas erram muito. É preciso usar o gelo certo, em tamanho médio ou grande, e na quantidade correta”, diz D'Agostino. “Não adianta preparar um ótimo coquetel e finalizá-lo com um gelo de baixa qualidade, que dilui rápido demais e compromete a experiência”, completa Fernandes.

E a simplicidade da receita cria uma certa armadilha: parece fácil demais para exigir tanto cuidado. Mas é exatamente aí que está o problema.
“Como é um coquetel aparentemente simples, muita gente subestima a importância da execução técnica”, comenta Silva. “O erro mais comum é exagerar no açúcar ou usar suco de limão oxidado. O Fitzgerald depende muito de frescor.” Fernandes aponta os mesmos riscos: gelo inadequado, resfriamento insuficiente, proporções descalibradas. “No Fitzgerald, como a receita é simples, qualquer desequilíbrio fica muito perceptível.”
Novo clássico, estrutura antiga
Uma das coisas mais curiosas sobre o Fitzgerald é que, com menos de quarenta anos, já carrega o peso e a naturalidade de um clássico.
D'Agostino explica como isso acontece: “A coquetelaria evolui, mas se você analisar a estrutura dele, é a de um Sour ou de um Daiquiri. Você tem a base alcoólica, o cítrico e o açúcar. São estruturas que já são clássicas, na verdade. Ele teve uma boa aceitação, possui um nome interessante e apareceu no momento certo. Foi um alinhamento de fatores.”
Para Silva, tem a ver com a identidade:
“Quando um coquetel consegue atravessar modas e funcionar em diferentes contextos culturais, ele começa a ganhar status de clássico. O Fitzgerald é fácil de reproduzir, possui ingredientes acessíveis, agrada diferentes públicos e mantém identidade própria. Isso é muito raro.”
Onde provar em São Paulo
A seguir, reunimos alguns bares na capital para provar um bom Fitzgerald.
Beefbar

No Beefbar, o bartender Ricardo Takahashi prepara, além da versão clássica, um Fitzgerald com Tanqueray Sevilla (R$ 49), gin com essência de laranja que dá um toque frutado e agridoce ao drink. Endereço: R. Barão de Capanema, 320 - Cerqueira César
Coda Bar
No bar na Vila Buarque que marca o retorno de Alê D’Agostino ao comando de um balcão próprio, o Fitzgerald chega em sua versão clássica por R$ 52. O gin também aparece em drinks autorais, como o Tina Tini (R$ 58), que serve o destilado com licor de lichia e limão. Endereço: R. Barão de Tatuí, 223 - Vila Buarque
Oculto

No coração da Vila Madalena, a bartender Gabriela Fernandes também prepara a versão original do drink (R$ 39), que surge na seção de clássicos da carta, que também aposta em receitas criativas com gin. Exemplo é o Cheesecake Morango (R$ 49), que combina o destilado com morango e espuma de cream cheese. Endereço: R. Fidalga, 120 - Pinheiros
Piccini Bar
No Piccini Bar, o Fitzgerald é a base de gin London Dry, suco de limão siciliano, xarope de açúcar e dash de angostura bitter. A graça está na finalização, que ganha um toque de óleo de limão siciliano. Endereço: R. Dr. Renato Paes de Barros, 177 - Itaim Bibi
Grotta Cucina

Assinado pelos bartenders Alexandre e Caio Oliveira, o Fitzgerald do Grotta Cucina também segue a receita clássica: gin london dry, suco de limão-siciliano, xarope de açúcar, bitter e casca de limone na finalização. Custa R$ 45. Endereço: Rua José Maria Lisboa, 257 - Jardim Paulista
Jacarandá

Na carta de drinks Jacarandá, o Fitzgerald (R$ 45) também é um dos mais pedidos e também chega na versão original, com gin APTK, xarope de açúcar, sumo de limão e angostura bitter. Endereço: Rua Alves Guimarães, 153 - Pinheiros
Pobre Juan

Para acompanhar a tradicional parrilla do Pobre Juan, o Fitzgerald (R$ 51) também é opção, preparado com gin, limão siciliano, açúcar, bitter e nada mais. Endereço: Rua Haddock Lobo, 1626 - Cerqueira César
Rendez-vous

No bistrô de Pinheiros, drink chega como o Lillet Fitzgerald (R$ 48), que além dos ingredientes clássicos, ganha versão repaginada após um toque de Lillet Rosé. Endereço: Rua Fradique Coutinho, 179 - Pinheiros
Expedito Bar

Fora do circuito Pinheiros, o Expedito aposta em boa coquetelaria e na gastronomia de brasa no Campo Belo. Por lá, yakitoris japoneses são servidos sem segredo, mas com um olhar bom para os molhos. Sem segredo, a carta de drinks inclui o favorito paulistano em sua composição clássica, com gin, suco de limão siciliano e xarope de açúcar e algumas gotas de bitter aromático. Endereço: Rua Ibituruna, 1540 - Campo Belo
La Serena

Ostras, polvo e peixe branco são algumas das opções que combinam com a pegada despretensiosa do Fitzgerald (R$ 52). Aqui, o coquetel é melhor apreciado no bar, um dos ambientes do restaurante, todo inspirado na Costa Amalfitana. Para uma passada rápida, caem bem com o coquetel a tábua de presunto parma (R$ 105) ou uma das quatro opções de pizza (R$ 98 a R$ 129). Endereço: JK Iguatemi (Térreo) - Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041 - Vila Olímpia
Bistrot du Quartier

Após passar por uma mudança de gestão no primeiro trimestre de 2026, o Bistrot du Quartier retorna com nova cozinha e opções que pedem o acompanhamento de boa coquetelaria. No menu, combinam com o Fitzgerald (R$ 45) itens como o Pêche du Jour (R$ 119) e a Langouste au Bernaise (R$ 219), aqui servida com fritas. Na combinação imbatível, o drink vai bem com as Moules Frites (mexilhões cozidos no Vermute e fritas, R$ 59). Endereço: Rua Tamandaré Toledo, 25 – Itaim Bibi
Basq

Inspirado pela gastronomia do País Basco, o Basq tem menu descomplicado assinado por Gustavo Série, com opções como Crudo de Prego (R$ 29) e o espeto Classica Gilda (R$ 29) ideais para um aperitivo. Para acompanhar, a coquetelaria tem opções autorais, além de clássicos imperdíveis, como o Fitzgerald (R$ 39). Endereço: Rua Normandia, 17, Moema
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